quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Como se faz uma sitcom: Full House

Sempre tive vontade de escrever sobre bastidores e por-trás-das-câmeras de seriados norteamericanos. Os chamados enlatados costumam chegar prontinhos, geralmente atrasados, prontos para serem exibidos, após a dublagem ou legendagem.

Muitas vezes pouco conhecemos dos atores, produtores e diretores destes programas, e mesmo com a ajuda da internet o mundo dos seriados ainda parece distante e cheio de lacunas. Principalmente quando se trata de programas antigos ou já descontinuados.

Quero falar de Full House, ou Três é Demais, seriado produzido entre 1987 e 1995, que foi exibido no Brasil pela Globo, Warner Channel e SBT, e é meu preferido. Durante muitos anos acompanhei a saga de Danny Tanner, seu cunhado e seu melhor amigo para criar as três filhas de idades diferentes, com a ausência da esposa falecida.

Gosto tanto desta série que reuni um material praticamente inédito no Brasil sobre ela, com o qual pretendo falar sobre os bastidores da produção e outras curiosidades. Vamos a elas.

ORIGENS DE FULL HOUSE

A trama de Full House foi bolada por Jeff Franklin, um ex-professor e experiente escritor de comédias de situação. Ele pensou inicialmente nas confusões que três comediantes vivendo debaixo de um mesmo teto causariam, numa série chamada House of Comics. Tão logo apresentada aos produtores Thomas L. Miller e Robert L. Boyett, a ideia original foi completamente modificada para a de uma família não-convencional, em que três homens criariam crianças sem ajuda de mulheres. A TV americana da época vivia o auge das sitcoms voltadas para a família, como Family Matters, The Hogan Family, Family Ties, Diff'rent Strokes, Who's The Boss? e The Cosby Show, entre inúmeras outras.

O projeto foi em frente com Franklin, Miller e Boyett, e a série atraiu o interesse da rede ABC, que a inseriu em sua programação noturna das sextas-feiras, recheada de comédias e conhecida como TGIF (abreviação em inglês para "Graças a Deus, é Sexta-Feira"). Com o sucesso, a emissora mudou o programa para as quintas, a fim de alavancar a audiência deste dia.

ESCOLHA DO ELENCO



JESSE - John Stamos participara de várias séries, tendo se destacado em General Hospital, aos 19 anos. Depois fez outros trabalhos explorando sua imagem ainda adolescente e foi parar em Full House, onde, por ironia, se viu como o mais experiente ator do elenco, se comparado à Bob Saget e Dave Coulier, que eram comediantes. Quando viu que o papel envolvia motos, música e crianças, sentiu que o personagem tinha que ser dele. Acreditou na graça da trama, simpatizou com o personagem (roqueiro e motociclista, como ele) e gostou de poder trabalhar com crianças. Jesse era o irmão mais novo da esposa de Danny, portanto, tio das meninas.



DANNY - Danny é o pai de DJ, Stephanie e Michelle. Sua esposa morreu num acidente e, por isso, chamou o cunhado Jesse e o amigo Joey para ajudá-lo com as crianças. Para este papel, o primeiro nome que veio à cabeça dos produtores foi o do comediante e ator Bob Saget. Bob, comediante stand-up, atuava em boates e programas de TV e já trabalhara pela Miller-Boyett Productions para esquentar o auditório antes das gravações dos seriados da empresa. No entanto, Bob estava contratado pela CBS. Após pensarem em Paul Reiser (o Paul de Mad About You), gravaram o piloto com John Posey no papel.



John Posey inclusive havia posado para fotos (acima), mas Bob Saget foi demitido pela CBS e, livre, veio para assumir o papel de Danny. Feliz com o papel e também com o fato de que o programa da outra emissora, sem ele, caiu de audiência... Paralelamente a Full House, Bob apresentava o America's Funniest Home Videos, um programa de videocassetadas, da ABC.



JOEY - Dave Coulier assumiu com facilidade o papel de melhor amigo de Danny Tanner. Na vida real, Dave era comediante stand-up, imitador e dublador de desenhos (como Scooby Doo e Muppet Babies). Como já conhecia Bob Saget - ambos se ajudaram muito nos tempos em que tentavam a fama - sua química com ele o fez ser escolhido para o papel de Joey, personagem com quem se identifica muito.



DJ - O papel de DJ Tanner, filha mais velha de Danny, ficou para Candace Cameron, de onze anos, irmã do também ator mirim Kirk Cameron. Candace já havia atuado em mais de 25 comerciais e feito participações em séries (no Brasil pôde ser vista num episódio de Punky)antes de Full House e nunca teve aulas de interpretação. Em 1988 atuou no telefilme Eu Vi o Que Você Fez e Sei Quem Você É, um terror que foi muito reprisado pelo SBT.



STEPHANIE - Jodie Sweetin foi a primeira integrante do elenco a ser selecionada pelos produtores, que a viram participando da série Valerie e no comercial das salsichas Oscar Mayer. O papel de filha do meio foi escrito especialmente para ela e, há quem diga, seria o principal entre as crianças, se não fosse o fenômeno Olsen, no decorrer da série.



MICHELLE - Na seleção de elenco da série, as gêmeas Mary-Kate e Ashley Olsen, de apenas oito meses de idade, foram escolhidas para o papel de filha mais nova de Danny Tanner por seus grandes olhos azuis e por estarem sempre sorrindo e quase não chorarem - afinal, sua missão no início era a de apenas parecerem fofinhas. Uma substituía a outra para não se cansarem. Com o sucesso da série, se tornaram as crianças mais ricas do mundo.



BECKY - Lori Loughlin entrou no elenco na segunda temporada, sendo intuito dos produtores que tivesse um envolvimento romântico com Danny. Porém, a química com John Stamos deu mais certo, e, após pedidos dos telespectadores por cartas, a relação entre Becky e Jesse se desenrolou, levando ao casamento.



KIMMY - Andrea Barber, assim como as demais crianças do elenco, participara de comerciais e séries antes de Full House. Andrea fez a triste novela Days of our Lives, dentre outras. Sua personagem era a vizinha estranha e melhor amiga de DJ. Apesar de ser citada desde o primeiro episódio, a personagem aparecia ocasionalmente, até ingressar para o elenco fixo.

O DURO COMEÇO

Full House estreou em 22 de setembro de 1987 e a crítica caiu matando. Os analistas de TV disseram que a série era bobinha, piegas, sentimentalóide, previsível, pouco realista, dentre outros adjetivos. A recepção do público, por outro lado, foi bem melhor, embora a audiência não tenha sido das mais altas.

Bob Saget comentou que ignorou as críticas pesadas pois sabia desde o início que a série tinha tudo para fazer sucesso e que o público iria gostar.

E se formos pensar, os ingredientes de Full House também estavam presentes em outras séries familiares típicas dos anos 80, até nas mais consagradas. Então, as críticas eram exageradas... mesmo assim, Full House ficou ameaçado de cancelamento no final da primeira temporada.

Nem só críticas negativas Full House recebeu. As atuações das atrizes mirins Jodie Sweetin e Candace Cameron foram elogiadas e outro ponto destacado foi o fato de a série tratar de uma família sem a figura da mãe, morta num acidente.

O fato de Danny ser viúvo e as garotas, órfãs de mãe, era visto pela crítica como um bom exemplo às famílias na mesma situação, especialmente para as crianças que perderam os pais muito cedo, entenderem e superarem a dor da perda.

COMO ERA FEITO UM EPISÓDIO?

Um grande grupo de roteiristas se reunia regularmente com os produtores para criar as situações dos episódios. Com uma ideia definida em conjunto, surge um pré-roteiro com as cenas pensadas postas no papel. Daí, um roteirista era encarregado de transformar aquela folha em dez, desenvolvendo as falas e os diálogos.



O esboço era lido por toda a equipe, para ter certeza de que todos os personagens estavam agindo como se espera deles. Para não haver erros de continuidade, todas as referências possíveis sobre fatos anteriormente citados nos episódios eram anotadas e consultadas.

Os roteiristas já estavam envolvidos com o seriado e deveriam conhecer a psicologia dos personagens, seus trejeitos e bordões, e os estilos dos próprios atores. As gêmeas Olsen, por exemplo, tinham personalidades diferentes, mas interpretavam um mesmo papel, o da garotinha Michelle. Então, nos roteiros havia a inscrição MK ou A, nas cenas em que Michelle participava, a fim de indicar se naquela cena atuaria Mary Kate (mais calma e paciente) ou Ashley (mais extrovertida e agitada)


As letras A e MK indicam qual das gêmeas Olsen irá atuar na cena.


Esse esboço se transforma na primeira versão do roteiro, e o elenco é chamado para o chamado table reading ou read-through. Enquanto os atores liam em voz alta, os produtores e roteiristas faziam modificações, melhorando as piadas que não ficaram boas e arrumando os furos do enredo.

Os roteiristas precisavam definir com precisão a duração das cenas, uma vez que o programa tem meia hora de duração, devendo ser descontados o tempo gasto pelos créditos de abertura e encerramento e intervalos comerciais. O que sobra é o chamado "tempo de arte".



Enquanto a equipe de redatores modificava no texto, a equipe de produção começava a preparar os elementos diferentes que o programa exigia, como sets (cenários ou locações) e figurinos que precisavam ser confeccionados ou comprados, seleção do elenco de apoio e atores convidados, treinamento dos animais adestrados - e tudo isso a tempo, é claro!



Já com a versão final do roteiro em mãos, os atores recebiam suas cópias (geralmente às segundas-feiras) e ensaiavam por três ou quatro dias. Em meio à loucura dos ensaios, os escritores faziam mudanças de última hora. Com o texto devidamente decorado após noites de estudo em suas casas, os atores faziam o último ensaio em frente às câmeras, no set, para que o diretor e os cameramen experimentassem os ângulos e as tomadas e fizessem as marcações para a gravação.

"Em Full House temos cães, gêmeas de quatro anos de idade, uma menina de oito anos, outra de treze e dois comediantes stand-up que têm outros programas. Dirigi-los é mais próximo da vida real do que de uma série de televisão. É uma façanha organizacional." (Joel Zwick, diretor)


Durante todo o período de produção, os atores conviviam como se fossem uma verdadeira família. Também circulavam pelos estúdios os pais dos atores-mirins e seus professores particulares, já que a rotina de gravações não permitia que estes pudessem assistir as aulas normalmente. Somente Andrea Barber optou por ir à escola pela manhã e comparecer aos estúdios à tarde.




Full House, como as outras sitcoms, era gravado diante de uma plateia, que não aparecia, diferentemente do que acontece nos humorísticos brasileiros, como Sai de Baixo e Família Trapo. Os risos e reações do público eram gravados para serem utilizados na edição.



O estúdio no qual o set de Full House era montado era o Stage 24 da Warner Brothers (antigas instalações da Lorimar Television), onde anos mais tarde seria gravada a série Friends.


Com um tíquete como este o visitante poderia assistir às gravações na plateia.

A gravação costumava ocorrer às sextas-feiras, o dia mais corrido e tenso da semana. Finalmente, após este longo dia, os atores poderiam descansar e relaxar.

A EDIÇÃO

A equipe de edição tinha três dias para montar o episódio. O diretor e os produtores assistiam para solicitar modificações, caso achassem necessárias. Os produtores faziam os cortes finais, para encaixar a duração do programa ao tempo de arte determinado pela emissora de televisão.

Cada meia-hora semanal na televisão tinha, por trás, seis semanas de trabalho de uma grande equipe para ser feita e levada aos milhões de espectadores em todo o mundo.

Esta rotina foi seguida durante 8 anos, entre 1987 e 1995, período no qual Full House esteve no ar, em 192 episódios diferentes. Não foi fácil para seu jovem elenco infantil, nem para os atores adultos ou para a produção. Até a série engrenar, foram incertezas e duras críticas que quase levaram ao cancelamento. Depois, o sucesso, e a condição de clássico e cult que detém hoje.

fontes de consulta:
MATTHEWS, Stephanie. Unauthorized Edition of Full House. Modern Publishing, 1992.
STOREY, T.R. Full House Behind the Scenes. Troll Associates, 1993.
SWEETIN, Jodie. UnSweetined - a memoir. Simon Spotlight Entertainment, 2009.
Roteiro do episódio I've Got a Secret (S8E04), escrito por Ellen Guylas e dirigido por Joel Zwick, 1994.
Comentários de Jeff Franklin no episódio The Miracle of Thanksgiving (S1E09), escrito por Jeff Frankin e dirigido por Peter Baldwin, disponíveis no Box DVD Full House - The Complete Series, lançado em 2007.

11 comentários:

  1. Hamilton, excelente texto! Deve ter dado um baita trabalho fazer toda a pesquisa ein? Acredito que atualmente deve ser muito mais fácil produzir um seriado. Ao mesmo tempo, perdeu-se um pouco da qualidade das piadas.

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  2. Excelente!!! Nem tenho o que dizer. sinto falta dessa série.

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  3. Parabéns pelo texto! Adorei!

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  4. Hamilton, que trabalho de pesquisa maravilhoso e que qualidade de texto! Parabéns! parabéns! parabéns!
    É impossível que atrás de tudo isso não exista um projeto quase maduro de um possível brilhante roteirista.Abraços!

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  5. Caramba Hamilton! Muito massa esse seu post! Curti muito! :D

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  6. Tava na cmm do orkut de Full House, quando vi seus posts... mto legal, valeu por compartilhar com a gnt!
    Full House ganha de qualquer serie de hoje em dia, na minha opinião. Pode ser visto por qualquer idade (pois nao usa a banalização do sexo como base do humor; como é hoje em dia na maioria das series).
    Infelizmente nenhuma emissora brasileira está reprisando, mas nao sei se teria um grande publico, ja que outras series de sucesso estao no ar (Two and a half men, supernatural, etc...). Mas sei la, simplesmente nao sinto a "essencia" dessas series, tipo, nao sei explicar, mas nao é a mesma coisa! Assisto um video de Full House e depois vou ver um do Two and a half men e nao acho graça alguma.
    Pra piorar a bagaça, agora nao consigo mais baixar as temporadas, graças ao fechamento de todos os servidores que disponibilizavam a serie (tenho a 1ª e a 2ª temps completas e tava baixando o inicio da temp3 quando aconteceu o 'holocausto').
    Bom, quem sabe, um dia, teremos a oportunidade de rever Full House outra vez na tv.
    Abraços!!!

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  7. Cara, Parabens pelo post! Essa série marcou a minha infancia! E agora eu estou assistindo novamente ela, é bom saber essas curioisades :)

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  8. Parabéns pelo post, muito bom, excelente..
    Já assisti antes, e agora to começando a rever desde a primeira temporada (legendado), pois naum encontro dublado.. Foi bom ler esse post e saber como eram feita as gravações, etc ...

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  9. Parabéns, pesquisa colpleta..

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  10. Meus parabéns pela pesquisa realizada! Excelente texto.

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