quarta-feira, 3 de março de 2010

O que é velho é ruim?

Acabei de postar o vídeo de Inezita Barroso participando do quadro Sua Majestade, a Música, do antigo programa Hot Hot Hot, do Silvio Santos. Nele, Inezita conta um pouco da carreira e depois canta Lampião de Gás.

Resolvi postar esse vídeo em singela homenagem ao avô de um amigo, que, segundo seu relato, adorava ouvir músicas caipiras em seu radinho de pilha.

Costumo procurar saber mais a respeito das coisas que posto ou escrevo, por isso fiz uma pesquisa rápida no Orkut para ver o que encontrava sobre a Inezita. E, em meio às comunidades que exaltam sua importância à cultura genuinamente brasileira, achei uma verdadeiramente triste:



Como se percebe, o propósito da comunidade é ofender a veterana cantora, e os argumentos principais utilizados são a sua idade avançada e uma falta de talento que só eles percebem. Enfim, mais uma daquelas comunidades praticantes da intolerância eletrônica. Ironicamente, ainda colocaram um aviso (que destaquei no quadro vermelho) dizendo que possuem "livre arbítrio" e "liberdade de opinar", desde que não "ofendam raça, religião, classe, etc."

A comunidade é minúscula e possui poucos tópicos. Todos eles contrariam a advertência inicial, pois não há uma crítica sequer que vá pelo aspecto musical. Todas elas se pautam pela depreciação disparatada, agressões sem nenhum fundamento e gozação por ser Inezita velha. A única crítica que é, com esforço, aceitável, é a que diz que o programa Viola Minha Viola, que ela comanda na TV Cultura, é um "purgante". Mas a opinião não tem nenhum embasamento.

Agora vamos pensar seriamente. É nítido que os membros da comunidade são jovens, adolescentes ou ainda pré-púberes. Não possuem sequer um quarto da bagagem cultural (e de vida) que a cantora paulistana possui. Sempre se disse que a opinião do jovem vai contra o que ele acha velho, antigo, antiquado. O novo é sempre melhor que o velho, na visão do jovem, daí os conflitos com os pais e avós, comuns nessa idade. No entanto, essas posições violentas e arrogantes que se somam ao mero conceito de bom e ruim são retrato típico da juventude nos tempos de internet.

É direito de não gostarem da música e do programa de Inezita. Compreendo que o consumismo e os outros ismos da vida moderna não permite aos garotões e meninonas se identificarem com carros de boi, fogões de lenha, violeiros e outros bucolismos. Mas daí passar a esculhambação por conta de sua idade, ou acreditam piamente que nunca envelhecerão, ou realmente falta a eles uma bagagem cultural que lhes faça ao menos a arte dos outros. Nem digo "respeitar" ou "gostar", porque aí já vou longe demais.

A música que Inezita cantou no Silvio Santos, Lampião de Gás, aliás, é um belo retrato de uma São Paulo que não existe mais. A letra de Zica Bérgami retrata traços de uma infância com bilboquê, brincar de roda, espiar a chuva escorrendo pela vidraça e a vovó fazendo sequilho e pão no fogão de lenha.

A última estrofe é perfeita para encerrar, também, este texto.

Minha São Paulo, calma e serena,
que era pequena mas grande demais,
agora cresceu, mas tudo morreu,
lampião de gás, que saudades me traz.

Fiquem com Inezita Barroso em sua prosa e cantoria com Silvio Santos. O acompanhamento é da orquestra do Maestro Milani e do Coral do SBT.

Um comentário:

  1. São tudo jovens criados a leite com pera e Ovomaltino, Hamilton. Você disse tudo: o debate é válido quando pautado em argumentos, não em preconceitos ou fundamentações sem sentido. O desprezo pela Inezita fundado no fato de ela estar velha mostra uma indiferença não só com a cultura caipira, mas também com os próprios idosos de modo geral.

    Mas é bom ressaltar também que a comunidade tem um número pequeno de participantes.

    Abs.

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