terça-feira, 2 de junho de 2009

O sábio e o ignorante


Aconteceu na sexta-feira à noite, na frente do Fórum João Mendes. Estava esperando a abertura do farol de pedestres, quando se aproximou um sujeito meio amarrotado e sujo, com uma sacola na mão. Pediu algumas moedas, e explicou que não era para tomar cachaça: precisava juntar alguns milhares de dólares para voltar para a África e reecontrar sua mãe.

Comecei a notar que o homem falava português muito bem, e que tinha um jeito de africano. Ele me agradeceu pela nota que lhe dei em português e perguntou como poderia fazer o mesmo em japonês. Disse que era arigatô. Ele então quis saber como se perguntava em japonês se a pessoa sentia dor.

Eu não sabia.

Ele disse que precisava saber disso para poder conversar e confortar um senhor oriental que está com a perna quebrada, algo assim. Que a língua japonesa não era o seu forte, mas que sabia alguma coisa de inglês e de alemão, pois seu pai era alemão, enquanto sua mãe era africana. Falou uma meia dúzia de palavras complicadas e perguntou se eu tinha entendido.

Eu respondi que não entendi nada.

Ele traduziu: "fique com Deus". Falou que sabia bem português porque está no Brasil desde os oito anos de idade, e que poderia ficar horas falando sobre as dezoito preposições, pois as dominava.

Eu não tinha idéia de que eram tantas e nem sei se sei usá-las!

"Você conhece Nietzsche?", ele me perguntou. "Foi um filósofo alemão", ele mesmo respondeu. Segundo Nietzsche, o mundo se repete em ciclos. Assim, daqui duzentos anos nós vamos estar de novo em algum lugar tendo essa mesma conversa e você vai me dar de novo essa nota de um real, ele explicou.

Eu não sabia disso.

Pra mim, Nietzsche era o sujeito de vasto bigode e nenhuma modéstia que escreveu alguns livros muito interessantes que os meus amigos Guilherme Arrobas e Thiago Leal gostam de comentar. Filosofia não é o meu forte. Pensei na hora que eles deviam estar lá comigo naquela hora para manter o nível da conversa.

Mas o humilde rapaz africano mudou de assunto. "Eu não te chamo de japa porque isso é preconceito", revelou. O mundo não precisa de mais preconceito, e sim de paz. Lamentou o que acontecia na Coréia do Norte e em Israel. E com toda a certeza, afirmou que Obama não vai fazer as coisas que prometeu.

Eu disse nada.

Política externa e assuntos internacionais não são meus assuntos preferidos. Pensei na hora como seria bom o meu amigo Gustavo Macedo aparecer por lá para não me deixar sem resposta.

O papo estava muito agradável, mas precisávamos ir embora. Ele, para a Avenida Rio Branco, onde se encontraria com um grupo de nigerianos. Eu, para o Terminal Parque Dom Pedro II, onde tomaria o CAIO Mondego da Via Sul Transportes, o famigerado Fura-Fila, e seguiria para casa.

Despedimo-nos com um aperto de mão forte. Ele beijou minha mão e se abaixou para limpar a sola do meu sapato. Não entendi ao certo, mas deve ser um gesto de muito respeito em sua cultura. Qual o seu nome? - finalmente perguntei. Alex, respondeu.

E lá se foi, um entre dez milhões de pessoas que vivem nessa cidade. O farol de pedestres abriu e fechou umas cinco vezes enquanto conversei com ele, até que eu finalmente atravessei e segui meu rumo.

Não falei nada de útil, não transmiti nenhum conhecimento, nenhuma informação. O Alex é que me passou uma série de coisas. Mesmo assim, sendo eu tão inútil, ele me reverenciou na nossa despedida.

Tudo o que fiz foi lhe dar um pouco de atenção. Vai ver, é a única coisa que ele precisava. E eu também.

5 comentários:

  1. Ótimo texto, Hamilton! São Paulo tem dessas, uma conversa descompromissada, um transeunte que normalmente não prestamos atenção tem muito mais a falar do que muitas das "pessoas importantes" que encontramos no cotidiano. E por "pessoas importantes", não digo apenas os ricos e poderosos.

    Adorei mesmo! =D

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  2. É... não estamos acostumados com isso. Quando acontece, seu título fica parecendo até um eufemismo...

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  3. Bem, eu não acho que saiba tanto de Nietzsche a ponto de discutir o Eterno Retorno, coisa que nunca entendi ao certo, aliás =p

    Mas que coisa legal essa que ocorreu, hein. Um dos melhores textos que já li aqui e, pelo fato de ser um relato de uma experiência vivida, é como se lendo vivêssemos um pouquinho disso e sentíssemos essa coisa bonita que aconteceu com você.

    O conhecimento é importante, mas não é mais importante do que tratar bem uma pessoa, e creio ter sido essa a razão pela qual você foi reverenciado; por não ter acedido a um preconceito de que pessoas pobres não são nada.

    Parabéns!

    (obs.: tem como dar um jeito na caixa de comentários? Não consigo mover o cursor e nem adicionar tags html =p. Ah, além disso, agora fui postar o comentário não está aceitando minha conta do Google...)

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  4. Ótimo texto. Parabéns!

    Pretendo acompanhar o blog de agora em diante.

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  5. São as pequenas surpresas que esta megalópole esconde e muitas vezes destrói.

    Abraço.

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