sexta-feira, 26 de junho de 2009

Gugu: ingratidão com o Patrão?



Com essa história de que o apresentador Augusto Liberato está se transferindo do SBT, onde está há 27 anos, para a Record, muitas polêmicas se levantaram. A maior delas, a de que Gugu estaria sendo ingrato com o homem que o revelou.

Quase todo mundo sabe que o Gugu chamou a atenção de Silvio Santos porque lhe escrevia constantemente sugerindo idéias para seu programa de televisão. Assim, ainda muito jovem, foi contratado e começou a trabalhar na produção do quadro Cidade Contra Cidade, ainda na Tv Tupi, onde tornou-se grande amigo de Homero Salles. Depois de alguma incerteza em ser ou não um homem de televisão, Gugu formou-se em jornalismo e virou repórter e, depois, apresentador no SBT.

Mas poucos sabem com detalhes que em 1988 a Globo contratou Gugu para apresentar um programa aos domingos. Desde que Silvio Santos deixara a Globo nos anos 70, a liderança de audiência dominical nunca mais foi da emissora carioca, e ela queria mudar esse panorama.

Naquele ano, Silvio estava com problema sério na voz e temia ter que se aposentar. Pensando nas conseqüências da contratação de Gugu pela Globo, e preocupado em perder um jovem valor que poderia, em sua visão, tornar-se seu sucessor aos domingos, foi até a casa de Roberto Marinho e conversou diretamente com ele. Assim, acertou os pontos, pagou a rescisão milionária do contrato e Gugu voltou. Silvio não via em Gugu apenas um rapaz de talento, mas também de bom caráter, vindo de família honesta e humilde. A Globo teve Gugu em seu cast por menos de um mês, tendo toda a reviravolta ocorrido em fevereiro de 1988.

Para ter Gugu de volta, o Homem do Baú deu metade do seu tradicional Programa Silvio Santos a Gugu, que começou pelas manhãs assumindo o Passa ou Repassa, que até então era apresentado por Silvio, no horário do extinto Domingo no Parque, e também conduzindo a nova versão do Cidade Contra Cidade. Antes, fez um "estágio" como uma espécie de secretário do Silvio durante programas inteiros (é famosa a cena dos dois juntos no Roletrando), exceto no Show de Calouros, palco no qual somente Silvio pisava.



Silvio Santos ficou quatro semanas fora da televisão, tratando seu problema nas cordas vocais. Na volta, explicou ao vivo em seu programa que, se perdesse o "menino" para a Globo, em breve o povo se acostumaria com ele e, o SBT, que também não iria mais contar com o próprio Silvio, que iria se aposentar em poucos anos, perderia sua tradicional força nos domingos.

Mas Silvio não se aposentou. Gugu se consolidou e ganhou cada vez mais tempo para seu programa, prestígio e dinheiro. A Globo resolveu a questão dos domingos trazendo Fausto Silva da Bandeirantes, reforçado com todo elenco de novelas da emissora à disposição do apresentador.

Porém, o que está acontecendo hoje é exatamente o que Silvio Santos temia que ocorresse em 1988. Ele, a quem Gugu já chamou de seu "mestre", está com 78 anos, e é consciente que sua carreira vai chegando ao fim, apesar de ainda ter fôlego, disposição e vitalidade para conduzir seu auditório. Nesse momento, perder Gugu não é só perder o "menino". É perder aquele em quem apostou durante todo esse tempo, tirando-o da Globo e dando-lhe metade de seu programa.

É como um soldado treinado por um país, mas que, quando chega a guerra, vai lutar com o adversário.

Essa é a opinião de muitas pessoas que acompanham com atenção a onda de notícias que mais mexe com a televisão na atualidade.

Adendo: Gugu assinou com a TV Record no dia 25 de junho de 2009, e a partir de então muitos telespectadores passaram a externar sua decepção e descontentamento por isso. Veja, por exemplo, o texto escrito em forma de uma carta "assinada" por Silvio Santos ao seu ex-pulilo.



*postagem original em 17/6/9, republicado com ampliações em 26/6/9

quarta-feira, 24 de junho de 2009

A televisão fascina

Volto a falar de Roberto Justus, um dos mais bem-sucedidos empresários brasileiros do ramo da publicidade. Diferentemente de seus colegas Nizan Guanaes, Washington Olivetto e Duda Mendonça, para citar alguns, Justus não ficou conhecido do grande público por ter criado campanhas famosas ou envolvimentos com política e/ou times de futebol. Ao contrário, é o marco de uma era diferente nas agências de publicidade, mais corporativa, aparece como um executivo bem vestido e cheio de contatos, e não como um sujeito meio maluco e falante, de camisa colorida e gravata do Mickey, como era o estereótipo do publicitário um certo tempo atrás.

Digamos que Roberto Justus estava mais para o business do que para o show, deixando o folclore de sua profissão para o corinthianíssimo Olivetto e o marketeiro Duda.

Justus começou a deixar o business mais de lado e avançar no show, quando iniciou suas aparições em revistas de celebridades ao lado de namoradas famosas. E ganhou fama de ser um bom partido, evidentemente.

A Record apostou nele para ser apresentador de O Aprendiz, versão brasileira de um sucesso americano comandado pelo empresário e figurão Donald Trump. E Justus não decepcionou, tornando-se o programa de maior faturamento da emissora e emendando seis temporadas seguidas. Aí caiu nas graças do público. Resolveu até virar cantor e lançou um CD.



Agora, em meio à uma das maiores guerras de bastidores entre emissoras de televisão já vistas, Justus partiu da Record para jogar no outro lado, no SBT. Emissora de apelo muito mais popular, o canal fundado por Silvio Santos pensa em aproveitar Justus num game-show e/ou num talk-show.

A televisão deixou de ser para Roberto Justus apenas uma experiência interessante, na qual o público poderia conhecer seus pensamentos e sua filosofia de trabalho. Ele, que nem pensava em chegar tão longe, tomou gosto pela coisa, e resolveu investir nessa sua faceta.

Ninguém sabe ainda que programa Roberto Justus irá apresentar. Mas é certo que ele se deixou levar e passará a ser, para o público, cada vez menos empresário e mais apresentador. Menos homem de negócios, e mais artista. Na certa, no SBT, o desafio será muito maior: ele não poderá ser o apresentador que vocifera conhecimentos acadêmicos e se mostra extremamente culto e letrado. Ao contrário, a audiência da emissora espera dele apenas o poder de comunicação, a simpatia, o carisma, a identificação popular, o calor humano. Características que, talvez, não sejam condizentes com o perfil de um businessman.

Isso tudo só vem a mostrar o fascínio que a televisão continua exercendo. Mesmo hoje, quando os índices de ibope já não são tão elevados em razão da concorrência com a internet e os canais por assinatura, tornar-se um artista de televisão ainda é o sonho de muita gente, das mais humildes às mais ricas.

terça-feira, 16 de junho de 2009

E não é que o Levy Fidelix tinha razão?

Já não é a primeira vez. Faz algum tempo que o eterno candidato Levy Fidelix alega que o projeto do anel viário que interliga as rodovias da Grande São Paulo, evitando que os caminhões tenham que passar por dentro da cidade - o chamado Rodoanel - é idéia dele.

E agora, é o tal do aerotrem. Sim, a (única) bandeira de campanha, que há tantas eleições é cantada e elogiada como o mais moderno sistema de transporte do mundo por ele, agora foi parar na boca do secretário estadual de transportes, José Luiz Portela. Ouvi ontem na Rádio Bandeirantes.



O secretário falava sobre o projeto de transporte de massa para a cidade de São Paulo que estará pronto em 2012, antes da Copa do Mundo, portanto. Os trens da CPTM integrarão o Metrô, e haverá monotrilhos ligando a Luz ao aeroporto de Congonhas. O termo "monotrilho" foi dito ainda mais umas duas vezes, quando, então, querendo ser mais didático e claro, assumiu logo a palavra "aerotrem".

É isso mesmo. Mas será que se trata daquele trem magnético de altíssima velocidade, que aparecia em desenho animado e animação em 3D de péssima qualidade, nas propagandas-relâmpago de Levy Fidelix? Acho que nem importa. Para quem debochava do caráter visionário (pra não dizer maluco) do presidente e fundador do nanico Partido Renovador Trabalhista Brasileiro em transformar a paisagem da paulicéia numa Epcot Center desvairada, aí está: o aerotrem vem aí.

Se bem que, sabendo como os projetos do Metrô mudam tanto, é mais prudente esperar e ver o que virá.

terça-feira, 2 de junho de 2009

O sábio e o ignorante


Aconteceu na sexta-feira à noite, na frente do Fórum João Mendes. Estava esperando a abertura do farol de pedestres, quando se aproximou um sujeito meio amarrotado e sujo, com uma sacola na mão. Pediu algumas moedas, e explicou que não era para tomar cachaça: precisava juntar alguns milhares de dólares para voltar para a África e reecontrar sua mãe.

Comecei a notar que o homem falava português muito bem, e que tinha um jeito de africano. Ele me agradeceu pela nota que lhe dei em português e perguntou como poderia fazer o mesmo em japonês. Disse que era arigatô. Ele então quis saber como se perguntava em japonês se a pessoa sentia dor.

Eu não sabia.

Ele disse que precisava saber disso para poder conversar e confortar um senhor oriental que está com a perna quebrada, algo assim. Que a língua japonesa não era o seu forte, mas que sabia alguma coisa de inglês e de alemão, pois seu pai era alemão, enquanto sua mãe era africana. Falou uma meia dúzia de palavras complicadas e perguntou se eu tinha entendido.

Eu respondi que não entendi nada.

Ele traduziu: "fique com Deus". Falou que sabia bem português porque está no Brasil desde os oito anos de idade, e que poderia ficar horas falando sobre as dezoito preposições, pois as dominava.

Eu não tinha idéia de que eram tantas e nem sei se sei usá-las!

"Você conhece Nietzsche?", ele me perguntou. "Foi um filósofo alemão", ele mesmo respondeu. Segundo Nietzsche, o mundo se repete em ciclos. Assim, daqui duzentos anos nós vamos estar de novo em algum lugar tendo essa mesma conversa e você vai me dar de novo essa nota de um real, ele explicou.

Eu não sabia disso.

Pra mim, Nietzsche era o sujeito de vasto bigode e nenhuma modéstia que escreveu alguns livros muito interessantes que os meus amigos Guilherme Arrobas e Thiago Leal gostam de comentar. Filosofia não é o meu forte. Pensei na hora que eles deviam estar lá comigo naquela hora para manter o nível da conversa.

Mas o humilde rapaz africano mudou de assunto. "Eu não te chamo de japa porque isso é preconceito", revelou. O mundo não precisa de mais preconceito, e sim de paz. Lamentou o que acontecia na Coréia do Norte e em Israel. E com toda a certeza, afirmou que Obama não vai fazer as coisas que prometeu.

Eu disse nada.

Política externa e assuntos internacionais não são meus assuntos preferidos. Pensei na hora como seria bom o meu amigo Gustavo Macedo aparecer por lá para não me deixar sem resposta.

O papo estava muito agradável, mas precisávamos ir embora. Ele, para a Avenida Rio Branco, onde se encontraria com um grupo de nigerianos. Eu, para o Terminal Parque Dom Pedro II, onde tomaria o CAIO Mondego da Via Sul Transportes, o famigerado Fura-Fila, e seguiria para casa.

Despedimo-nos com um aperto de mão forte. Ele beijou minha mão e se abaixou para limpar a sola do meu sapato. Não entendi ao certo, mas deve ser um gesto de muito respeito em sua cultura. Qual o seu nome? - finalmente perguntei. Alex, respondeu.

E lá se foi, um entre dez milhões de pessoas que vivem nessa cidade. O farol de pedestres abriu e fechou umas cinco vezes enquanto conversei com ele, até que eu finalmente atravessei e segui meu rumo.

Não falei nada de útil, não transmiti nenhum conhecimento, nenhuma informação. O Alex é que me passou uma série de coisas. Mesmo assim, sendo eu tão inútil, ele me reverenciou na nossa despedida.

Tudo o que fiz foi lhe dar um pouco de atenção. Vai ver, é a única coisa que ele precisava. E eu também.

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