segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

As caras de São Paulo


A revista Veja São Paulo, nas bancas nesta semana, homenageia a capital bandeirante em razão de seu 455º aniversário. A reportagem principal apresenta os resultados de uma pesquisa que apontou as pessoas e lugares que são a cara de São Paulo. 1000 pessoas foram entrevistadas.

A pesquisa traz resultados óbvios e previsíveis, em sua maioria, senão vejamos:

Silvio Santos, carioca radicado em São Paulo, foi o mais votado como apresentador de TV;
Silvio Santos, outra vez, agora eleito como empresário;
Catedral da Sé, a igreja;
Morumbi, o estádio de futebol;
Verão, a estação do ano;
José Simão, da Folha, o jornalista de imprensa escrita;
Rosa, a flor;
Municipal, o teatro;
Rogério Ceni, o esportista;
Demônios da Garoa, o grupo de samba;
William Bonner, paulistano radicado no Rio, jornalista de TV;
Hebe Camargo, apresentadora de TV;
Itália, o edifício;
Ipiranga, o museu;
Monumento à Independência, o monumento;
Lima Duarte, o ator;
Fernanda Montenegro, a atriz;
Gregório Gruber, o artista plástico;
Avenida Paulista, o cartão-postal;
Ibirapuera, o parque;
Titãs, a banda de rock;
Bandeirantes, a rádio AM;
Nativa, a rádio FM;
Arroz com feijão, a comida e
Walter Rodrigues, o estilista.


Trata-se de pesquisa feita pelo instituto Análise, Pesquisa e Planejamento de Mercado (APPM), com um evidente interesse comercial, e não cultural. Mostra às agências de publicidade e anunciantes o que o público "consome".

O resultado, porém, não é dos mais interessantes. Apresenta traços tipicamente paulistanos de conservadorismo e tradicionalismo, além da forte dose de rotina e habituidade. Isso explica as escolhas previsíveis de Silvio Santos e Hebe como apresentadores de TV, da Rádio Bandeirantes como estação AM que tem a cara da cidade, e dos Demônios da Garoa como grupo de samba. O conservadorismo também é resultado de uma falta de renovação. Daí a escolha dos Titãs.



O teatro que é a cara da cidade é o Municipal; o parque, do Ibirapuera; o museu, do Ipiranga. Certamente a grande maioria dos entrevistados deu uma resposta pronta, de quem desconhece outras opções de resposta, como se fosse a única possível. Como falar de outro parque? Como falar de outro Museu? Outro teatro? E tem tantas opções: parque da Luz, do Carmo, da Aclimação, Villa Lobos... MASP, MAM... Cultura Artística, Procópio Ferreira, Abril...

Com o perdão de quem conduziu a pesquisa (e de quem dela tomou parte), resultados assim traduzem perfeitamente outro viés da personalidade do paulistano: a hipocrisia inocente. Duvido que a maioria dos entrevistados de fato conheçam os lugares que escolheram como os melhores. Vão pela média, pelo clichê. Seguem a opinião formada. Se todo mundo diz que é bom, então, deve ser mesmo. E assim se passam por intelectuais, também. É uma minoria, afinal, que frequenta teatros, parques e museus em nossa cidade.

Temos, então, dois blocos de respostas. O de respostas pautadas na tradição contemporânea e o de respostas pautadas no chavão e no clichê. Nessa se encaixam as escolhas da Avenida Paulista, da Catedral da Sé e do Edifício Itália, também.

Tudo isso demonstra que os paulistanos gostam muito da cidade, mas pouco sabem ou procuram saber a respeito dela. Ficam no raso, na superfície, na mesmice. A resposta, aliás, é praticamente proibida de ser outra senão a que saiu no resultado do levantamento. Nosso cérebro já indica a resposta!

Claro que também há ainda espaço para um terceiro bloco, o de "surpresas". Que elege José Simão, William Bonner, a rosa e o verão...

Mas ainda há outra coisa ainda mais interessante na pesquisa. É a que pergunta: se São Paulo fosse uma pessoa, como essa pessoa seria? A mesma pergunta foi feita em 1990 e agora, 2009.

Em 1990...
...o paulistano imaginava que, se a cidade virasse uma pessoa, seria alguém como a figura acima: homem, corintiano, boêmio, mas dedicado no banco onde trabalha, na Avenida Paulista. Casado, mas tem amantes. Gosta de samba, mas não sabe dançar. Dirige um Monza, passa fins de semana no Guarujá, ganha bem, mas não tem dinheiro porque sustenta muitos dependentes. Seu sobrenome? Progresso e Esperança.



Já em 2009...
...a capital ganhou nome e jeito de mulher, que se chama Maria Vitória. Bem-sucedida em seu emprego no mercado financeiro, tem marido e filhos, torce para o São Paulo e é bem-humorada. Seu salário é daqueles de fazer inveja às amigas, mas ela gasta como se não houvesse amanhã. Enfrenta o trânsito numa Cherokee. Voltou a estudar e, agora, faz psicologia. Maria Vitória é casada e tem filhos. Ganha um belo salário por seu trabalho no mercado financeiro e gasta mais do que deveria.

Não gosto do resultado. Ao meu ver, o paulistano de 1990 ainda é uma figura bem típica da cidade. A figura nova traz dados que fazem a alegria dos que não gostam da revista Veja: um perfil que poderiam chamar de "pequeno-burguês", "classe média emergente", "mesquinho" e coisa e tal, e todos aqueles adjetivos anti-Diogo Mainardi e anti-Veja que pipocam por aí. E, de fato, pensando bem, precisava ter uma Cherokee? Precisava fazer inveja às amigas e esbanjar dinheiro, comprando e gastando?

Parece que a tal personificação de São Paulo nada mais é do que um estereótipo do leitor ideal de Veja. Uma espécie de Homer Simpson, homem médio, bonus paterfamilias ou coisa que o valha. O público-alvo, talvez, da revista. Não gosto. Não é a minha imagem de São Paulo uma mulher rica e esnobe dirigindo um SUV americano e, pior, trabalhando no mercado financeiro e sendo bem-humorada!

Pensei a respeito e criei minha própria imagem personificada da cidade. Também é uma mulher. No meu caso, jovem, entre seus 25 e 30 anos. Trabalha como operadora de telemarketing e, com o salário, paga sua faculdade de administração. Faz academia, gosta de baladas, mas também de ler livros de auto-ajuda e best sellers. Torce para o São Paulo, porque o time está sempre ganhando, e vai às vezes no estádio. Tem um namorado há muitos anos, mas não pensa em casar. Mora com os pais e está financiando um carro que comprou zero quilômetro. Adora passear na Paulista e ir ao cinema.

O problema é que uma pessoa só é muito pouco para uma cidade com tantos jeitos e trejeitos. Resolvi fazer o perfil da família da nossa paulistaninha, para acompanhá-la.

O pai é um sujeito esforçado. Acorda às 5 da manhã e é auxiliar numa empresa média. Faz um pouco de tudo, lá. Recentemente terminou os estudos num supletivo e vara as madrugadas estudando para passar num concurso público. De lazer, gosta de jogar futebol e cuidar do carro. Lê apenas os jornais populares. Compra DVDs piratas no camelô para ver em casa. Não vai a cinemas. Admira muito a filha. Torcedor do Santos, por causa do Pelé, que viu jogar.

A mãe é uma nordestina que chegou ainda jovem à cidade. Tem de bagagem muita sabedoria popular. Dá risada bem alto e é ótima cozinheira. Trabalha no setor administrativo de uma empresa grande. Tem profunda admiração pelas pessoas que se fizeram sozinhas na vida, como Silvio Santos e Samuel Klein. E, até por isso, nunca deixa de comprar nas Casas Bahia e de apostar na Tele Sena. Gosta de ler livros espíritas. Frequenta a missa, mas não segue nenhuma religião. É corinthiana e tem até uma camisa roxa do time.

Por fim, o irmão. Adolescente, se veste de preto e usa boné sujo. Sua mochila tem vários chaveiros que fazem barulho, batendo uns nos outros. Gosta de desenhos japoneses e é assíduo participante de encontros de otakus e cosplayers. Gosta de ouvir música no fone de ouvido, e passa a madrugada toda mexendo no seu blog, no flog, no MSN. Tem um perfil no Orkut e um fake. Não trabalha, está fazendo cursinho para prestar vestibular. Vai ao McDonald's uma vez por semana, mas não é gordo. Gosta de futebol, joga, mas torce para um time europeu que conheceu no videogame. Não acompanha o futebol brasileiro.

Essa é a família paulistana, na minha óptica. Nada de sonhos e ilusões, nada de Jeep Cherokee, nada de mulheres torrando seus cartões de crédito.

São Paulo é a nossa terra. Cada um a vê como quer. Eu não a vejo como a Veja, e sim do meu jeito.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Greve no Banespa



Vi essa manchete no UOL hoje e tomei um bruta susto. Afinal, o Banco do Estado de São Paulo já não existe mais. Que greve seria essa? A crise é tão brava que atingiu até instituições desaparecidas?

Não, logo reparei que estavam tratando do time de vôlei feminino do Esporte Clube Banespa, que participa da Superliga. Acontece que o patrocinador está tirando o cavalinho da chuva, e, com isso, o dinheiro para o pagamento das atletas. Com isso, o clube está com alguns meses de salários atrasados e as jogadoras fizeram greve, algumas rescindiram contrato e as dez remanescentes (que não formam dois times completos, portanto) ameaçam processar o clube.

Tenho minha simpatia pelo E.C. Banespa. Meu pai era banespiano, então freqüentei por muitas vezes as sedes do clube. Em especial a da Penha, e guardo boas recordações dos quiosques e do lago da sede de Vinhedo. Restaram a carteirinha que não vale mais, um boné do futsal e uma bolsa com o nome do clube.

Queria muito ter tido a camisa de futsal, era listrada em vermelho e branco, como a camisa do Náutico. Mas minha mãe nunca comprou porque dizia que era cara. Era a camisa de um grande time de futsal (na época, chamado de futebol de salão), que foi campeão num campeonato disputadíssimo que acompanhei quando criança pela TV Jovem Pan, canal 16 UHF, com apresentação de Milton Neves. Lembro que a final foi disputada contra o time da GM, que tinha camisa azul e branca e um goleiro chamado Cachimbo. Se não me engano, corria o ano de 1992.


Além do futsal, o Banespa sempre foi muito forte no vôlei, especialmente no masculino. A poderosa equipe de voleibol dos anos 80 e 90 conseguiu, entre outros títulos, o de hexacampeão Sul-Americano e duas vezes vice-campeão Mundial. Na foto, o time de 1991. Em pé: Ricardo (supervisor), Neto, Marcelo Negrão, Allan, Ronaldo, Léo, Tande, Pipo, Amauri, Giovane, Imai (assistente técnico) e Getúlio (gerente). Sentados: Luizão (massagista), José Elias (preparador físico), Dentinho, Mauricio, Montanaro, Paulo Rogério, Paulo Coco, Dema, José Augusto (preparador físico) e Josenildo (técnico) - foto extraída do site do E.C. Banespa.

Uma grande tristeza da privatização do Banespa foi o fim dessa marca. Nome forte, nome de banco sólido: "Banespa, a força do Estado de São Paulo", dizia a propaganda, cheia de referências do nosso Estado... plantações, gado, cidades grandes, gente trabalhando etc. etc. E, como filho de banespiano, que cresceu vendo o pai ir trabalhar numa agência, nutria grande afeição por essa instituição bancária, certamente maior que a que meu pai tinha pelo banco, já que ele tinha que encarar as carimbadas e clientes todos os dias. Eu ficava só com as boas imagens...

Só restou mesmo o clube. Não sou mais sócio dele, mas a simpatia permanece. O distintivo ainda é o mesmo. O uniforme se modificou e o Santander pulou fora de patrocinar e investir no esporte. O negócio dos espanhóis é patrocinar equipes de Fórmula 1, pelo visto. É surpreendente que o último logotipo do banco antes da privatização ainda seja utilizado na logotipia do clube.

Não deve ser fácil para um clube que tem o nome de um banco que nem existe mais conseguir patrocínio...

Longa vida ao Banespa. Que os deuses do esporte estejam sempre ao lado dele.

Talvez você se interesse por:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...