sábado, 20 de setembro de 2008

É reportagem ou é postagem?

Não sou jornalista, não devia me meter a querer discutir isso. Mas acabo de ler a edição de hoje do Estadão e fiquei incomodado com a reportagem Como é mesmo o nome dessa rua?, do caderno Metrópole. A reportagem está disponível para leitura no site estadao.com.br, na seção Estadão de Hoje, mas também coloco à disposição para vocês neste link.

A reportagem é de Edison Veiga, e o que me chamou a atenção foram alguns recursos de linguagem empregados por ele no texto. Começa assim:

Rua Pirajuçara ou Pirajussara? Loefgreen ou Loefgren? Édison ou Edson? Atire o primeiro dicionário quem nunca titubeou ao ver tais nomes de ruas paulistanas.


A opção foi pelo recurso retórico, ao invés de um discurso direto. Discutível, até um pouco batido, mas tudo bem. Depois, vem esta passagem:

Dissemos duas grafias diferentes? Perdão, caro leitor. Há casos em que uma terceira forma aparece (...)


Meu estranhamento aumentou... por que escrever uma matéria jornalística desse jeito intimista? E usando o chavão "caro leitor" para buscar uma aproximação, segurar o interesse de quem lê a reportagem? É como aquela expressão batidíssima, "deste que vos escreve", que costuma se seguir à opinião lançada pelo autor. Desnecessário, além de ser um clichê.

O texto prossegue, e, mais à frente vem a parte mais, digamos, curiosa:

Nos anos 1940, por exemplo, uma norma determinou que fossem aportuguesados os nomes que utilizassem K, Y ou W. "Uma medida nacionalista", acredita o historiador. Por esse motivo, a Rua Wanderlei, que cruza com a Avenida Sumaré, virou Vanderlei. Mesmo assim, a placa da CET fixada no citado cruzamento ainda traz a grafia antiga (mesmo a CET não sendo daqueeeele tempo!).


Por que escrever "daqueeeele" e não simplesmente "daquele", ou então introduzir um outro adjetivo mais incisivo para destacar a antigüidade? "Vetusto", por exemplo, ficaria bom: "mesmo a CET não sendo daquele vetusto tempo!". Ou então: "mesmo a CET não sendo de tão priscas eras!".

Lembrei que o Estadão possui um excelente manual de redação. E que sempre passou a imagem de um jornal sisudo, sério e muito bem escrito, cujos gracejos em geral aparecem mais no caderno de Esportes. Achei totalmente desnecessários os incrementos feitos pelo repórter, que até me motivaram a escrever logo no início da manhã por aqui.

Fiquei com a nítida impressão de que estava lendo um blog nas páginas do jornal. Gracinhas como essa tiram a real importância do assunto tratado, como se fosse algo de menor valor. Se fosse, não ocuparia tanto espaço: meia página do caderno Metrópole. Talvez o mesmo texto ficasse ótimo para uma reportagem na televisão ou no rádio, meios nos quais a retórica e a forma de apresentação das informações valem muito em conta. No papel, não achei que tenha ficado bom. Na televisão, teria espaço dizer um "daqueeeele", bem comprido!

Não sei se, tendo a necessidade de preencher as colunas do jornal, com o número de toques exigidos para o fechamento da edição, foi necessário utilizar esses "recheios". Ou se, cada vez mais, os efeitos da internet no discurso afetam nos outros meios de comunicação. Enquanto não escreverem nada no jornal em internetês, está bom.

Um comentário:

  1. Achei curiosa a maneira encontrada pelo jornalista de prender o leitor no texto. Nunca tinha visto, um 'daqueeeele' em algum texto do Globo ou da Folha.

    Mas, não raramente, jornalistAs do Globo gostam de fazer um nariz de cera (quando se enrola para chegar ao assunto) ou então brincar com o texto, fazer gracinhas, uma bobagem e perda de espaço.

    Mas, já vi num título da Veja o 'internetês' em matéria sobre o mesmo assunto. Falando nisso, um quadro do jornal local da Globo no Rio se chama 'Vc no RJ'.

    Bela observação, Hamilton

    ResponderExcluir

Talvez você se interesse por:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...