quinta-feira, 10 de julho de 2008

Também vão pegar você...

Saiu o filme Tropa de Elite (2007, dir. José Padilha), meu pai não quis ver: "é filme brasileiro, filho, não presta". Insisti, pois sabia que ele, assíduo telespectador do Brasil Urgente, haveria de se interessar pelo tema. Aluguei o DVD e ele gostou, aliás, ficou incrédulo pelo fato de tantas denúncias e revelações serem escancaradas sobre o modus operandi da polícia. "Por que nenhuma autoridade não se pronunciou sobre o filme?", perguntou meu pai, que ainda quis saber se tentaram proibir a exibição do filme. Respondi que não me lembrava de ter visto ninguém falar nada...

Nos extras do filme, o diretor e o elenco dizem esperar que o filme cause repercussão, pois - não escondem de ninguém - é polêmico. Esperavam colocar o filme em debate para que fossem feitas "mudanças" na Polícia Militar. Assim, José Padilha seguia a mesma linha e temática de seu filme anterior, o Ônibus 174.

Porém, entendo que o filme nunca deu o resultado esperado. O "grande debate da opinião pública" guinou para a questão da pirataria no mercado de DVDs e CDs, com discursos sobre a crise da indústria do entretenimento. Chegou-se a dizer que o filme fora propositadamente lançado em barraquinhas de camelô antes de chegar aos cinemas, como jogada de marketing. Totalmente sem lógica...

Parece que ninguém levou a sério o filme. Quem mais assistiu e gostou foram os jovens, acostumados a diversões modernas como Counter Strike e outros jogos de tiro em primeira pessoa. Tropa de Elite nada mais era que uma versão filmada de um jogo de computador. E a corrupção da polícia? Somente uma historinha para deixá-lo mais divertido... corresponde àquilo que todo mundo sabe, mas que ninguém fala. E que, como faz parte do "sistema", também não tem como ser mudado; é assim e pronto.

A repercussão mais grotesca, abominável, vergonhosa e desprezível da obra cinematográfica aqui tratada foi feita pelo Sr. Antônio José Cavalcante, vulgo Tom Cavalcante. No Show do Tom, programa humorístico da TV Record, no qual o mau gosto predomina, criou o tal Bofe de Elite. Aproveitou-se para fazer graça das frases e bordões espirituosos e dos modos agressivos do personagem Capitão Nascimento, contextualizando-as para um bando de soldados efeminados, extravagantes e de coturno cor-de-rosa. Contudo, virou sucesso e foi uma das fantasias mais vendidas para o Carnaval de 2008.

Falou-se, depois, numa disputa entre as três maiores redes de televisão do Brasil para a transmissão do filme na TV aberta, e também para a produção de um seriado baseado nos personagens. A idéia, obviamente, era repetir o sucesso das transliterações de Carandiru e Cidade de Deus. Esquece-se os "objetivos maiores", moralistas e socialmente engajados, para deitar olhos no marketing e no faturamento: a tragédia social vira lucrativa franquia, e nada mais.

Mas, quanto à discussão dos métodos, dos problemas, das questões administrativas da Polícia Militar, nada...

O filme foi distribuído no exterior, ganhou prêmios, mas foi criticado pela violência excessiva... no estrangeiro sempre é noticiado que a polícia brasileira mata muita gente, e que há um clima de guerra civil nas grandes cidades e nas favelas.

Agora, surge o caso dramático da morte de um garotinho, cujo carro onde estava com a mãe e o irmão bebê foi metralhado por policiais militares. E o pai dele, compreensivelmente revoltado, não pede apenas Justiça, pede "mudança na polícia". Algo está errado. Será que vai ser necessário outro filme para tentar denunciar os problemas? Por que fugiu-se do assunto principal de Tropa de Elite, até agora?

O fato é que, quem mais ganha com isso é a imprensa, que faz sensacionalismo sem muito esforço. Jornais e revistas escancaram manchetes, as televisões exploram o caso até o último fio de cabelo... e essa história se repete a cada tragédia - em tempos de queda de audiência, há que buscá-la a qualquer custo. Bem vindo ao mundo-cão do século XXI.

7 comentários:

  1. Vinícius Barbosa12 de julho de 2008 17:04

    Concordo plenamente com o autor do texto, o Hamilton. Vale como exemplo citar o caso Isabela. A imprensa mastigou tanto o assunto (principalmente a Rede Record) que só faltava instalar uma câmera dentro do caixão da menina e mostrar as diferentes fases da decomposição do cadáver. O caso dos Mamonas Assassinas, nem se fala. Ganha troféu. O que dá muita raiva é esse fingimento que existe na imprensa. Esse artificialismo. Até parece que esses carniceiros ficam comovidos com a fatalidades que ocorrem no Brasil. Se tragédia tivesse um botão de liga/desliga, os canais de televisão o apertariam pelo menos uma vez por mês.

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  2. Muito bom o texto, Hamilton! De fato, atualmente tem sido raro algum fato, produção artística (como no caso), evento, não acabar sendo desvirtuado pela mídia. Mas não se deve deixar de lado a questão de que a imprensa faz o que faz porque sabe o que vai fazer sucesso com o público, já que, afinal, seu maior objetivo é conseguir audiência. Ou seja, no final das contas, a situação em tese só mudaria com a transformação da mentalidade das pessoas. Minha opinião, pelo menos. Complicado. E decepcionante, claro.

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  3. Nãããão, o "decepcionante" se refere ao fato de que a mentalidade das pessoas é um dos grandes motivos pra maneira como as coisas são atualmente, e não à minha opinião, heheh!

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  4. Parabéns, um dos melhores textos do blog até hoje. Realmente o grande debate gerado por Tropa de Elite foi, infelizmente, a pirataria. Mudanças na polícia? Parece que o filme nem tratou disso.
    Por mais triste que pareça, a tendência é essa. O problema maior é que caso a polícia brasileira passasse por uma reformulação e funcionasse perfeitamente, não teríamos notícias como a da semana passada, do menino que tomou dois tiros. Faca de dois gumes... Parece que a mídia dá atenção exatamente àquilo que não vai sofrer mudanças significativas, por mais "engajados" que pareçam os noticiários...

    Belo post, merece muita reflexão.

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  5. Ah, e eu cheguei a suspeitar se o filme não seria criticado ou visto com maus olhos por denunciar sérios problemas na estrutura policial no país, porém já sabemos do que de fato ocorreu...

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  6. Juro que é o último: Counter-Strike já foi citado duas vezes em nosso blog, que curioso, hehe.

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  7. O filme retrata uma polícia violenta, com métodos de combate ao crime verdadeiramente assustadores. Existe necessidade de mudanças na polícia brasileira? Sim, é claro. O modelo de polícia é ultrapassado e não condiz com a realidade vivida no país. O problema é que existem muitas engrenagens funcionando sobre o despreparo da polícia brasileira. Uma delas, certamente, é a imprensa, que mesmo a chamada "séria" também vive seus momentos de "vampirismo", se regalando com a desgraça alheia. Outra engrenagem é o custo da manutenção das polícias, que é muito baixo, em comparação com o que deveria ser, pois, salários dignos e formação profissional custam caro e o modelo atual satisfaz as aspirações de qualquer político brasileiro.

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