terça-feira, 29 de julho de 2008

Cara-de-pau

Cena comum em nossas cidades grandes é entrar no ônibus, metrô ou trem um sujeito vendendo guloseimas ou outras quinquilharias. Havia também muitos pedintes, mas eles praticamente desapareceram de dentro dos coletivos. Quem dominou o espaço são os vendedores ambulantes. Chegam e explicam que a situação econômica está difícil, que não conseguem trabalho, que precisam criar os filhos e que tem um produto em promoção, que na mão deles é muito mais em conta. Tudo num texto decorado, recitado, praticamente um texto-padrão. Alguns são mais criativos, fazem piadinhas, divertem-se e divertem os passageiros; outros são agressivos e até reclamam de quem não lhes dá bola.

Dia desses entrou um sujeito na lotação. Fez o discurso em prol do Maxi Chococo, da Bauducco, dizendo que um custava R$ 0,50 e dois apenas R$ 1,00. Reparei que ele estava vestindo camiseta da Puma, agasalho novo do Santos F.C., da Umbro, e corrente de ouro grossa, um figurino que devia valer uns R$ 400,00, sem contar os tênis, que não vi quais eram...

Então, a surpresa maior: ele falou que era muito importante que todos pudessem comprar o produto, e gostaria que todos colaborassem, afinal estava cursando uma faculdade, e precisava vender nas férias para custear a mensalidade! Queria muito ser um bom profissional e, para isso, precisava terminar os estudos, no que contava com a colaboração de todos...




Logo pensei: que cara-de-pau! Ele quer demonstrar sua sinceridade, sua dedicação, sua humildade em querer estudar e conseguir uma boa colocação. Sim, tudo isso é louvável. Mas não condiz em nada com os trajes que estava usando. Ah, quer dizer que pra vender mercadoria como ambulante tem que ser maltrapilho, é? Não, não é isso. Mas eu perguntaria a ele, se pudesse, porque gasta tanto com o vestuário, se poderia estar salvando dinheiro para pagar a faculdade, os livros, algum curso profissionalizante... se é isso que ele diz querer...

Depois de apresentar o produto e efetuar umas duas vendas, ele se sentou numa das poltronas e permaneceu a viagem toda falando ao celular com alguém, parecia que estava tratando de alguma festa ou que iam juntar uma turma...

Além do mais, na certa a mercancia de guloseimas em pequena escala não é nenhum negócio da China, que permita adquirir caras vestimentas esportivas e correntes de ouro, quiçá custear uma faculdade!

Sabemos que nos Estados Unidos os estudantes custeiam parte dos estudos vendendo limonadas, cortando grama, entregando pizza. Pelo menos é o que a gente, daqui, ouve falar. Vemos, até sem nenhum escândalo público, garotas de programa desempenharem essa atividade com as mesmas intenções.

Então, você me perguntará: que mal há em vender traquitanas dentro de ônibus para custear os estudos? Eu respondo que não sei se há. Mas que as coisas não se encaixam, ah, não se encaixam mesmo!...

2 comentários:

  1. Hahaha, qualé, Hamilton! Tá pegando pesado com o cara... só porque a gente se acostumou a ver pobretões na pindaíba recorrendo a esse emprego? XD

    Seria tão bom se todo o ambulante trabalhasse para pagar faculdade...

    Bom, eu também não sei dizer de primeira se há algo harmônico ou não... Mas veja só, eu poderia pensar o mesmo de qualquer profissional.

    Pergunta lá pro profissional liberal ou mesmo para um empresário:
    -Você quer me vender seu serviço ou produto por quê?
    -Ah, porque precisamos de dinheiro, né... todos precisam.
    -Então, já que você está precisando de dinheiro, porque está vestindo esse terno de quatrocentos reais? Porque você tem um Civic e não um Gol bolinha? Por que você fez um churrascão no domingo? Por que foi à praia no feriado, etc, etc...

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