domingo, 4 de maio de 2008

A menina e o padre

Separadas por poucas semanas, duas tragédias repercutiram na imprensa e nas rodas de conversa pelo Brasil. Primeiro, a morte da garotinha, defenestrada do apartamento do pai; depois, o desaparecimento de padre que realizava um perigoso vôo impulsionado por balões de gás.

Tais notícias provocaram sentimentos muito diferentes nas pessoas que, em geral, choraram e lamentaram a brutalidade cometida com a inocente criança, mas riram com sarcasmo e deboche da aventura fatal do religioso. Por que tamanha diferença no modo de encarar os fatos, se temos, em última análise, o mesmo evento: a morte?

Ao acompanhar todos os passos e todos os detalhes do caso da morte da garotinha, os canais de televisão foram chamados de sensacionalistas e acusados de estarem transformando o evento trágico em espetáculo. Espero que quem assista saiba fazer a diferenciação e, melhor, saiba e consiga tirar de todo este episódio alguma lição ou aprendizagem acerca do espírito humano. Afinal, assistir, ler, ouvir e comentar com o mesmo interesse de quem acompanha um folhetim, seriado ou novela não colabora em nada para a formação de ninguém. Mesmo que se despertem as emoções - o que elas sozinhas nos dizem?

Chorar num caso ou rir no outro são reações compreensíveis. Mas não se pode esquecer que, por trás desses eventos, há sentimentos mais intensos e verdadeiros, de parentes, amigos e pessoas próximas, que se sentem diretamente atingidos e afetados por tudo o que aconteceu. A eles devemos respeito. A vida real não é um folhetim.

Escrevi sem saber aonde ia chegar. Este post não tem nenhum propósito conclusivo, apenas inquiridor. E chega.

EDIT: engraçado, achei que este tópico iria bombar. Mas só o Thiago Le(g)al comentou alguma coisa. Bom, talvez as pessoas não tenham uma opinião formada. Não se inibam em comentar, eu também ri pacas com essa doideira do Padre Voador.

EDIT 2: mais um comentário no tópico, e com a sensibilidade de uma literata, a Laura. Comentário que vale por muitos, de verdade.

2 comentários:

  1. Hehe, vejo que você realmente ficou preocupado com estilo do texto... mas lhe digo, rapaz: agora é meia-noite e vinte e desde hoje à tarde estou pensando nos dois primeiros parágrafos que você me mostrou.

    E lhe respondo, alto, forte e claro: NÃO SEI!

    Mais uma brincadeira à parte, eu digo que, em verdade, não curti as piadas que fizeram sobre a morte do padre. Pelo que vi, ele não estava lá por puro exibicionismo ou estupidez, e sim para conseguir um recorde (de uma atividade até bizarra, mas de mercado cujos consumidores somos nós mesmos; p.ex. Guiness Book e variantes) e utilizar o dinheiro para auxiliar uma pastoral da qual fazia parte.

    Ele foi até mesmo indicado no site do Prêmio Darwin... eu até acho esse prêmio engraçado, mas... ainda trata da morte, não é mesmo? Quem aqui riria de verdade com a morte à sua frente, não é?

    Confesso, porém, que eu também me permiti rir um pouco com o que falavam do padre, embora na minha consciência houvesse esse incômodo.

    De forma que seu texto me fará pensar.

    Obrigado e abração!

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  2. Gostei. Simples e sensível. Se você não sabia aonde queria chegar, digo que nem sempre a gente precisa saber, basta seguir.
    O fato é que a comparação entre essas duas "visitas" da morte era algo para ser feito com muita naturalidade, tanta que o seu post foi até agora o único que a fez. Aliás, eu mesma não tinha pensado nisso.
    Fiquei imaginando um homem de batina subindo em um balão colorido, nem céu de azul intenso. Pode parecer piada para muita gente, mas para mim é até um pouco poético.
    Diferente da morte da menina, que dá raiva. Tanta que eu assistia na TV cada notícia "nova" sobre o assunto. Tempo perdido? Não sei.
    Também não sei aonde quero chegar. Mas gosto de pensar, com tristesa e sem sadismo algum, na imagem de um homem vestido em batina preta que morreu indo para o colorido do céu.

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