sábado, 8 de março de 2008

A crise, o desvirtuamento e os anos 90

Quando este blog nasceu, por idéia do meu "sócio" Daniel, seria um local para reflexão acerca do mundo atual. A base era uma percepção que temos e que parece não se cansar de se confirmar: o mundo está cada vez pior, as pessoas mais medíocres e menos exigentes. Chamamos a isto de "a teoria". Mas não era só isso o que queríamos trazer para o universo dos blogs, e nem passar uma imagem de depressivos pessimistas ou conservadores hipócritas - o que não somos, diga-se de passagem. Quem está nos acompanhando reparou que falamos de tudo um pouco, de cultura (especialidade do Daniel) a cultura inútil (minha especialidade).

Nas minhas participações, falei principalmente da infância de ontem em comparação com a dos dias de hoje, de mudanças de comportamento e, ultimamente, dei atenção ao "brega". E eis que acho fuçando na internet um site chamado "Adeus Anos 90" escrito por Alexandre Figueiredo (http://br.geocities.com/adeusanosnoventa/). O autor escreveu longos estudos sobre música, cultura popular, televisão e jornalismo (sem copiar nem plagiar ninguém, o que é raro hoje em dia nesta internet da vida). E pretende demonstrar que a era 90 foi a pior década do século passado! Os 90 não passaram, para ele, de uma baita decepção ao lembrar que os 80 eram tidos como a "década perdida".

Os comentários do autor são polêmicos e defendidos com bastantes argumentos, com opiniões que não agradarão a todos. Eu discordo do que ele diz a respeito do brega, por exemplo, pois se choca com o meu post anterior. Recomendo a leitura, e tenho certeza de que concordarão ao menos em parte com alguma coisa. Eu bati o olho nisto que reproduzo abaixo (graças à magia do Ctrl-C-Ctrl-V), com comentários meus entre parênteses, e gostei:

“Balada”, que era música lenta, virou sinônimo de “agito”. “Bandas” agora “não precisam” ter instrumentistas (lembram do que falei a respeito do Calypso? Uma banda constituída por uma cantora-dançarina, seu marido guitarrista e meia dúzia de dançarinos - desculpem pela intervenção no texto...). “Demorou” é algo tipo “arrebentou”, ao invés de significar perda de tempo. “Mulher lindíssima” é eufemismo para “mulher gostosa”. Skatistas pronunciam a palavra “galera” como se fosse um achado da cultura underground, sem perceber que qualquer pagodeiro fala essa gíria. O funk, que era conhecido pelo som orquestrado e com bons cantores do Earth Wind & Fire (cuja bela gravação In The Stone é tema da Porta da Esperança do Programa Silvio Santos. Veja mais em nosso outro blog http://obaudosilvio.blogspot.com/2008/03/trilhas-sonoras-de-programas-do-sbt.html) , Chic e JB’s (banda de James Brown) hoje é atribuído a um som tosco com uma batida eletrônica – de uma geringonça comprada talvez da Feira de Acari, no Rio de Janeiro (quem reclamava dos sintetizadores e baterias eletrônicas dos anos 80 não esperava que se chegaria tão longe com essa aparelhagem) – e um pobre feioso e desdentado cantando (isto é, falando) mal e dizendo baixaria (a famigerada canção Egüinha Pocotó, de que já tratamos por aqui, virou um marco dos que criticam a situação atual da música e da cultura brasileira, como o conhecido site http://www.brasileirospocoto.com.br/). Os estilos hardcore e rhythm and blues, respectivamente associados a um punk agressivo e crítico e a um blues mais ritmado e acompanhado de guitarra elétrica, hoje acabam sendo nomes para um estilo punk rápido mas inofensivo – que tem a “saudável” (no sentido neoliberal do termo) missão de falar de “pessoas legais” – e para um estilo romântico e comercial da música negra norte-americana.

Caro Alexandre Figueiredo, bom o seu texto. E peço desculpas por tê-lo publicado aqui sem o seu assentimento. Mas há muito que se lamentar. Porém, é certo que, se os jovens hoje relembram com saudades os anos 80, os jovens do futuro estarão lembrando com saudades dos anos 90. Para o bem e para o mal.

Um comentário:

  1. Hamilton,

    Primeiramente, parabéns pelo blog, a você e ao Daniel!

    Sobre o texto, bem, é um tema extremamente interessante para mim, embora eu nunca tenha tido tempo e disposição séria para pesquisá-lo.

    Mas questiono, como leigo, como você encara a crítica da pós-modernidade à luz disso que escreveu, e, também, à luz desse instigante site que você recomendou.

    Não explorei a contento a "autópsia" dos anos 90... então não sei se o Alexandre Figueiredo tratou dos seguintes pontos:

    -Suponhamos que os anos 80 tenham sido a "década perdida", os anos 70 tenham tido o espírito de um "senso crítico descaratado" (a Ditadura Militar dá o tom aqui, creio), e os anos 60 tenham sido os "anos dourados", de "otimismo" e tals.

    Não é curioso notar que entre a decadência intermitente dos anos 60 para cá e, por exemplo, o êxodo urbano que inchou as metrópoles brasileiras, há uma curiosa coincidência? Não te instiga que os anos 90 foram os anos em que a mesma tecnologia que animou as pessoas por inseri-las num mundo mais confortável é a tecnologia que pressiona o consumo de cada vez mais produtos, cada vez mais sufocantemente? Ou ainda, que é nessa época e nesses lugares em que ocorrem "patologias sociais" como depressão, anorexia e até mesmo índices mais altos de tensão pré-menstrual (uau)?

    Há algum tempo, escrevi um texto também, cujo tema era esse, embora abordado de outro ângulo. De caráter muito menos empírico e mais... digamos... "artístico", no sentido de se permitir às extravagâncias pessoais que temos dentro de nós. Se puder, dê uma comentada lá:

    http://altivago.blogspot.com/2007/07/white-night-fantasy.html

    Bom, vou parar por aqui, senão este comentário se transformará num post dentro de outro :p

    Abração, garoto!

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