domingo, 30 de março de 2008

A civilidade e o futebol

Depois de muito tempo sumido, por motivos diversos, finalmente volto a trazer alguns pensamentos ao blog. O post de hoje relaciona-se a uma das minha maiores paixões nessa vida: o futebol. Não cabe aqui discorrer sobre essa "devoção", no entanto um fato muito me chama a atenção desde 2007, durante as partidas do Campeonato Paulista.

Imagino que nem todos os leitores do blog sejam fanáticos pelo esporte bretão e frequentem ou assistam a jogos de futebol com frequência, então passo a explicar (como diria meu professor). A Federação Paulista de Futebol (FPF) introduziu, no regulamento do Campeonato Paulista de 2007, a obrigatoriedade da execução do hino nacional brasileiro antes de todas as partidas da competição. À primeira vista até achei algo razoável e interessante, mas aos poucos essa sensação esvaiu-se.

Atualmente poucas pessoas sabem cantar nosso hino, um dos mais belos do mundo aliás. A letra é um pouco complicada, tem várias palavras complexas e pouco usadas, mas esse não é o motivo principal. A noção brasileira de civilidade destoa bastante da americana, por exemplo, que é louvável. Aqui, é difícil ver sinais positivos de patriotismo (ia inclusive fazer um post sobre isso, fica para o próximo). Praticamente não existe aquela empolgação em levar uma criança para conhecer um museu e contar um pouco sobre a nossa história. Além disso, predomina uma visão pessimista sobre o país, o que não contribui para que sejamos mais patriotas e faz com que comentários do tipo "é por isso que o Brasil está assim", que eu particularmente detesto, sejam usados frequentemente.

Assim, pelo menos de modo geral, o brasileiro não se orgulha de seu país. Desse modo, é difícil encontrarem estímulo para darem o devido valor ao nosso hino. Talvez pudéssemos resolver a questão estimulando os alunos de escolas a cantarem a canção pátria mais frequentemente, quem sabe até por lei... E aqui vem a grande questão: definitivamente, se tem lugar em que não daria certo tentar estimular tal prática são os estádios de futebol.

Se você, leitor, assistiu no estádio a algum jogo antes do qual foi executado o hino nacional deve entender o que estou falando. Colocando melhor, nos estádios de futebol quem costuma fazer mais barulho são as torcidas organizadas, que não costumam parar de cantar e batucar por nada. Sendo assim, durante a execução do hino, as organizadas continuam entoando suas homenagens aos jogadores e até mesmo os xingamentos ao time adversário... Ao fundo, "deitado eternamente em berço esplêndido"... É uma cena lamentável. O efeito chega a ser quase o oposto: a criança que foi com a família assistir ao seu time associará o hino nacional a gritos de torcida... O ambiente não é propício.

A Federação Paulista costuma tentar inovar e trazer novas idéias à organização do Campeonato Estadual, como dois árbitros em campo (que acabou não dando certo) e cartões como critério de desempate (visando estimular a disciplina em campo). Algumas delas são muito boas e acabam sendo adotadas pela Confederação Brasileira de Futebol, porém a obrigatoriedade da execução do hino nacional, para mim, infelizmente não soluciona o problema. É algo desrespeitado por muitos e dificilmente fará com que os espectadores de jogos de futebol sejam mais patriotas.

Erratas: Cometi um erro nesse post. A obrigatoriedade da execução do hino foi instituída por Lei Estadual, não pela FPF. E acredito não ter deixado muito claro que eu sou patriota em tudo que posso e favorável à execução do hino, mas quando cantado espontaneamente e por pessoas que dêem valor a um ato tão nobre.

O Control-C-Control-V

Nosso amigo cartunista, músico, editor gráfico e pseudo-quase-artista de televisão e (salt) cover do Sr. Barriga (ops, escapuliu!...) Igor C. Barros escreveu em um de seus vários blogs sobre as maravilhas do contador de visitas (http://igorcbarros.wordpress.com/2008/03/29/come-que-e/). Depois que comecei a mexer com esse troço fiquei viciado nisso, de poder ter o feedback dos internautas: como eles chegam até nosso endereço, onde clicaram, que pesquisa fizeram no Google etc.

Nosso querido amigo Carastan de Barros ficou bastante impressionado por alguém que entrou em seu "Igor C. Barros Cartoons" (aliás, cadê os cartoons?) no Wordpress procurando na internet por "Eu estou com azar". E deve ter tido muito azar mesmo, pois o Igor não escreveu nunca nada sobre isso, ao menos cientificamente... Também tenho um exemplo bem engraçado. No nosso outro blog http://obaudosilvio.blogspot.com/, uma pessoa descobriu a nossa postagem sobre o microfone do Silvio Santos enquanto procurava "suporte para colocar santos em altar"!

Estas experiências demonstram que, ao contrário do que os defensores das enciclopédias tradicionais dizem, a internet pode ser sim uma grande fonte de pesquisa e não dá apenas respostas mastigadas para nossas perguntas. Costuma-se reclamar do fato de que, na grande rede, basta um clique no Google e descobriremos as respostas que quisermos, e que as crianças não precisam pensar, basta dar um control-c-control-v e pronto, o trabalho escolar de pesquisa já está feito.

O método tradicional de pesquisa em livrões como a Barsa, a Encyclopaedia Britannica, Mirador, Larrouse, Tesouro da Juventude, ou mesmo em fontes menos dignas como o Almanaque Abril, aquelas coleções esquisitas de Reader's Digest, revistas velhas etc... costuma ser defendido assim: quem pesquisa, invariavelmente, enquanto folheia as páginas, acaba encontrando outras coisas interessantes que não estava procurando, lê, aprende e toma gosto e prazer pela leitura. Sim, é verdade. Mas também é verdade que quem quiser simplesmente vê no índice onde está o assunto, vai com pressa até ele, tira cópias ou recorta o texto e as figuras e prontinho. Fez o trabalho no método control-c-control-v primitivo, em que bastava ter uma tesoura e um tubo de cola.

Quem quer e tem interesse de verdade em conhecer as coisas e é curioso e xereta por natureza irá além desse tipo de pesquisa medíocre que narrei nos parágrafos acima. Tanto faz se navegando na rede ou mergulhando no livro, vai aprender algo além daquilo que estava procurando.

Defender apenas os livros é ser conservador ao extremo e negar as facilidades da internet. Defender a internet por causa do control-c-control-v é ser preguiçoso e burro demais para fazer um trabalho sério, e quem o faz certamente faria o mesmo se tivesse em mãos um livro ao invés de um teclado e um mouse.

Mas os professores também têm que fazer a parte deles, pedindo para os alunos trabalhos que exigem alguma reflexão e algum "trabalho", literalmente. Ah, escrevam vinte páginas sobre a Guerra do Paraguai; escrevam cinqüenta sobre a Divisão Internacional do Trabalho; resumam Memórias Póstumas de Brás Cubas e façam um esquema para distribuir para a classe... isso não é dar trabalho aos alunos, é tirar do professor o trabalho de ensinar! Merece tantas críticas quanto os métodos pedagógicos de fazer cartazes com recortes de revista ou pintar figuras a pretexto de estar ensinando inglês ou espanhol: vaca em inglês é "cow", então vamos colorir a vaquinha de amarelo... cachorro se diz "perro", então vamos recortar do gibi da Mônica um Bidu ou um Floquinho e colar nesta cartolina. Então a gente bota a cartolina no corredor para a escola inteira ver que vocês sabem tudo de castelhano. E dá dez pra todo mundo.

Depois de escrever tudo isso só espero que nenhum espertinho vá dar um control-c-control-v neste post e sair divulgando-o apocrifamente por aí. Como diz Luiz Fernando Bindi em http://futeboleumacaixinhadesurpresas.blogspot.com/, Plágio é atestado de burrice!

domingo, 23 de março de 2008

O Trem da Alegria faz a gente sonhar...

Minha coleção está completa!

Não falei antes, mas finalmente completei a coleção de discos do Trem da Alegria. Agora sim, tenho todos os vinis, completinhos, com encarte e em bom estado para apreciar, guardar e matar as saudades da velha infância.

Os discos que faltavam, de 1991 e 1992 (relembre minha saga aqui: http://transcendentes.blogspot.com/2008/02/resgatando-infncia-perdida-ou-nunca.html e http://transcendentes.blogspot.com/2008/02/resgatando-infncia-parte-2-o-preo-da.html) foram realmente difíceis de encontrar. Os vi no Sebo Liberdade, o de 1991 com a capa toda rabiscada e o de 1992 sem o encarte.

Soube que o melhor lugar para comprar vinis é nos sebos especializados das galerias da Rua 24 de Maio, perto da galeria do Rock. Fui até lá, certo de que iria ter de gastar um pouco mais de dinheiro do que havia gasto até então (por toda a coleção de 1984 a 1990 desembolsara R$ 16). Achei o que queria, um disco em cada loja diferente, e de lambuja ainda achei os discos de divulgação de Thundercats (1986) e Iô-Iô (1988). Por estes dois e pelo de 1991, paguei R$ 5 em cada. O disco de 1992 saiu por R$ 13. Todos lindos, perfeitos, encarte sem um amasso sequer.

Aliás, perfeitos até demais. Tem muita cara de encalhe de loja de disco falida. Será que nunca tiveram dono? O disco de 1992 está com o plástico protetor externo original, inclusive. Mas ele tem uma chancela: amostra de divulgação invendável, não tributada... então tá...

Ainda achei um disco de 1985 (Uni-Duni-Tê) em perfeitas condições, com todos os encartes (incluindo jogo da memória e cupom para participar da promoção 'vá para Porto Rico com o Menudo'). Levei também. Agora estou com dois discos de 1985, talvez seja bom me desfazer de um deles, trocando por outra coisa.

Desta aventura pude tirar mais algumas conclusões além das que já tinha. É quanto aos sebos. Os sebos especializados da galeria da Rua 24 de Maio, número 188 são realmente excelentes e valem muito a visita. A organização do acervo é incrível. Os lojistas manjam tudo de música, desde rock progressivo até MPB, brega e velha guarda. E vendem de tudo, e tudo em perfeito estado. Têm um público exigente e criterioso. Como conseqüência, vendem seu material pelo preço que realmente valem e mais um pouco (chamo de valor agregado afetivo do futuro proprietário), ou seja, uma nota preta!

Já os sebos populares, que vendem de tudo, tem muitos tesouros, mas é necessário desenterrá-los. Como não temos o mapa do tesouro, a procura é intensa e podemos chegar até a sentar no chão e se sujar de poeira. Recomendo o Sebo Liberdade, com duas lojas, uma na Avenida Liberdade e outra na Praça Carlos Gomes, as duas com muitos discos (embora desorganizados. Esteja disposto a perder uma tarde toda lá). O lado bom disso tudo é que, mesmo que não achemos o que queremos, sempre vamos dar de cara com alguma coisa interessante que não esperávamos achar. E a preços ridículos. O lado ruim é que o acervo (ou seria melhor dizer depósito?) é tratado com pouco cuidado, às vezes até desleixo, e pode até estar se deteriorando. Além disso, não há critério para a compra do material pelo vendedor, o que pode nos fazer encontrar peças bastante destruídas como esta:




...rasgado, remendado, colado com durex, faltando pedaço, rabiscado, o disco todo torto e vendido pelo mesmo preço de um disco em bom estado. Claro que não dá pra comprar uma coisa dessas. Espero que a criança que tenha tido este disco tenha aproveitado muito bem. A vida desse LP não foi fácil nas mãos da pirralhada. Agora ele repousa enquanto espera um novo dono, que, desculpa dizer, disquinho, mas nessas condições, acho que você nunca terá...

Feito para ser feio

Quando os profissionais do desenho industrial da indústria automobilística sentam em suas mesas de trabalho, não pensam em nada além de carros bonitos, elegantes, agradáveis, funcionais e modernos. Quando o carro sai do papel para ganhar as ruas, tem ainda de ser econômico, confortável, seguro, confiável.

Já falei aqui de um grande fracasso de Detroit, o Ford Pinto, que foi considerado em pesquisas um dos carros mais feios do mundo. Hoje vou falar de um carro que foi na contramão do que é normal: ele foi pensado para ser feio, pouco prático, indesejado.

Em 1983, a Warner Bros. lançou um grande hit dos filmes de comédia besteirol politicamente incorreto, e uma das melhores comédias até hoje: Férias Frustradas (National Lampoon's Vacation). O roteiro traz a difícil jornada de uma família tipicamente americana que quer cruzar o país para chegar ao parque de diversões Walley World (claramente inspirado na Disneylândia) a bordo de um carro.

A maior parte do filme se passa com a família no carro, que é um dos principais personagens do enredo. Logo no começo, Clark Griswold (interpretado por Chevy Chase), patriarca do clã, vai à loja de carros pegar sua nova perua encomendada. Mas levou gato por lebre: ludibriado pelo vendedor bom de papo, teve que se contentar com um modelo que estava encalhado por ali e foi empurrado pelo dono da loja. A dublagem chamou o possante de Caminhonete Familiar Rainha, mas, na verdade é a Wagon Queen Family Truckster.





Clark Griswold e seu filho Rusty são apresentados à caminhonete familiar Rainha.


E aqui chegamos ao assunto de hoje: aquele carro horroroso. O Wagon Queen Family Truckster foi concebido pelos produtores do filme para ser não somente o mais feio, mas também o pior carro do mundo. Como a família protagonista do filme só se mete em frias, com o carro não poderia ser diferente.

Assim, aproveitando a base de uma perua Ford LTD Country Squire 1980, trocaram a frente e a traseira por um conjunto de aberrações, como as oito lanternas dianteiras, formando duas linhas de faróis completamente desarranjadas, a entrada de ar pequena demais e a grade dianteira tenebrosa, e mais uma coroa elevada sobre o capô, como se fosse a estrela da Mercedes-Benz.


Espero que você não tenha pesadelos com esta grade dianteira.


Nas laterais do carro, uma aplicação de madeira, comum nas picapes e peruas americanas, mas aqui feita toscamente, os vidros do porta-malas que não acompanham a linha da cintura do veículo, não se harmonizam com absolutamente nada e dão aquele ar de rabecão de funerária... e ainda espaço para uma coroa dourada enorme que decora a coluna traseira e uma entrada de ar fajuta que piora ainda mais a aparência.

Aqui dá pra ver a coroa gigante na lateral do carro, ao lado desse vidro esquisito do porta-malas, que não tem nada a ver com nada. De onde tiraram essa idéia bizarra?

Não se pode esquecer do detalhe das calotas, "enfeitadas" com uma coroa gigantesca, símbolo da tal Wagon Queen. As calotas duram pouco no filme, pois são roubadas quando a família passa pela periferia de Saint Louis. Nesse lugar barra-pesada uns caras mal-encarados também escreveram com spray "Honky Lips" na lateral do carro.

Uma das melhores sacadas é a abertura do tanque de combustível. Clark pensa que fica atrás da placa traseira, e acaba arrancando a placa. O bocal fica dentro do motor, e para acessá-lo há uma portinha que fica... na tampa do motor, ou seja, no capô do carro! Aliás, o motor era bem fraquinho...


Ellen Griswold: Isso é lugar para um tanque de gasolina?


Por dentro, bancos inteiriços de uma cor marrom pálida parecem mais sofás velhos. Mas o carro contava com um air-bag feito, ao que parece, de saco de lixo, e que não funcionava muito bem.

O vendedor de carros que empurrou a belezinha para Clark Griswold o persuadiu de todas as maneiras a levar a perua. Disse que era a última palavra em transporte para a família. O senhor pode até odiá-lo agora, mas espere até dirigir. Essa frase tornou-se uma espécie de slogan da Family Truckster.

Como o filme é cultuado nos EUA como um dos grandes ícones dos anos 80, era natural que a station wagon mais feia do mundo também provocasse reações. Somente três veículos foram produzidos para o filme, e um repousa num museu cinematográfico, com direito a bagagem no teto e tudo, além da frente semidestruída, em razão do acrobático acidente no deserto do Arizona ("Pai, você deu um salto de 50 metros!"/ "Isso não é motivo para orgulho... 50 metros!").

Existem réplicas e uma delas está sendo construída, e os progressos podem ser acompanhados por um fórum de entusiastas de peruas: http://www.stationwagonforums.com/forums/showthread.php?p=886 . O proprietário da perua já providenciou a cor oficial, "metalic pea" ou, em bom português, "verde-ervilha metálico".

A réplica que está sendo feita por um americano. Só falta pintar de verde-ervilha metálico e colocar os apliques de madeira.


Feito para ser feio, não funcional e indesejado, o carro do filme Férias Frustradas tornou-se querido pelos fãs, e conseguiu assim um lugar entre os carros famosos do cinema!

Você gostaria de ter um carro desses? Pode odiá-lo agora, mas espere até dirigi-lo...

sábado, 8 de março de 2008

A crise, o desvirtuamento e os anos 90

Quando este blog nasceu, por idéia do meu "sócio" Daniel, seria um local para reflexão acerca do mundo atual. A base era uma percepção que temos e que parece não se cansar de se confirmar: o mundo está cada vez pior, as pessoas mais medíocres e menos exigentes. Chamamos a isto de "a teoria". Mas não era só isso o que queríamos trazer para o universo dos blogs, e nem passar uma imagem de depressivos pessimistas ou conservadores hipócritas - o que não somos, diga-se de passagem. Quem está nos acompanhando reparou que falamos de tudo um pouco, de cultura (especialidade do Daniel) a cultura inútil (minha especialidade).

Nas minhas participações, falei principalmente da infância de ontem em comparação com a dos dias de hoje, de mudanças de comportamento e, ultimamente, dei atenção ao "brega". E eis que acho fuçando na internet um site chamado "Adeus Anos 90" escrito por Alexandre Figueiredo (http://br.geocities.com/adeusanosnoventa/). O autor escreveu longos estudos sobre música, cultura popular, televisão e jornalismo (sem copiar nem plagiar ninguém, o que é raro hoje em dia nesta internet da vida). E pretende demonstrar que a era 90 foi a pior década do século passado! Os 90 não passaram, para ele, de uma baita decepção ao lembrar que os 80 eram tidos como a "década perdida".

Os comentários do autor são polêmicos e defendidos com bastantes argumentos, com opiniões que não agradarão a todos. Eu discordo do que ele diz a respeito do brega, por exemplo, pois se choca com o meu post anterior. Recomendo a leitura, e tenho certeza de que concordarão ao menos em parte com alguma coisa. Eu bati o olho nisto que reproduzo abaixo (graças à magia do Ctrl-C-Ctrl-V), com comentários meus entre parênteses, e gostei:

“Balada”, que era música lenta, virou sinônimo de “agito”. “Bandas” agora “não precisam” ter instrumentistas (lembram do que falei a respeito do Calypso? Uma banda constituída por uma cantora-dançarina, seu marido guitarrista e meia dúzia de dançarinos - desculpem pela intervenção no texto...). “Demorou” é algo tipo “arrebentou”, ao invés de significar perda de tempo. “Mulher lindíssima” é eufemismo para “mulher gostosa”. Skatistas pronunciam a palavra “galera” como se fosse um achado da cultura underground, sem perceber que qualquer pagodeiro fala essa gíria. O funk, que era conhecido pelo som orquestrado e com bons cantores do Earth Wind & Fire (cuja bela gravação In The Stone é tema da Porta da Esperança do Programa Silvio Santos. Veja mais em nosso outro blog http://obaudosilvio.blogspot.com/2008/03/trilhas-sonoras-de-programas-do-sbt.html) , Chic e JB’s (banda de James Brown) hoje é atribuído a um som tosco com uma batida eletrônica – de uma geringonça comprada talvez da Feira de Acari, no Rio de Janeiro (quem reclamava dos sintetizadores e baterias eletrônicas dos anos 80 não esperava que se chegaria tão longe com essa aparelhagem) – e um pobre feioso e desdentado cantando (isto é, falando) mal e dizendo baixaria (a famigerada canção Egüinha Pocotó, de que já tratamos por aqui, virou um marco dos que criticam a situação atual da música e da cultura brasileira, como o conhecido site http://www.brasileirospocoto.com.br/). Os estilos hardcore e rhythm and blues, respectivamente associados a um punk agressivo e crítico e a um blues mais ritmado e acompanhado de guitarra elétrica, hoje acabam sendo nomes para um estilo punk rápido mas inofensivo – que tem a “saudável” (no sentido neoliberal do termo) missão de falar de “pessoas legais” – e para um estilo romântico e comercial da música negra norte-americana.

Caro Alexandre Figueiredo, bom o seu texto. E peço desculpas por tê-lo publicado aqui sem o seu assentimento. Mas há muito que se lamentar. Porém, é certo que, se os jovens hoje relembram com saudades os anos 80, os jovens do futuro estarão lembrando com saudades dos anos 90. Para o bem e para o mal.

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