domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sementes de Cultura 2 - O Big do Brother

Depois de algum tempo, e também devido ao Carnaval, volto finalmente a postar (de novo no domingo, tá virando costume). Ao longo do post vi que fui caminhando para um novo texto informativo, com um pouco mais de críticas que o das sete maravilhas, e vi que cheguei à segunda edição das sementes de cultura, agora com um viés mais crítico, porém ainda contribuindo para que você, leitor(a), reflita sobre as influências de obras literárias no seu mundo.

Se você já leu algumas postagens mais antigas, deve ter percebido que o programa "Big Brother Brasil" costuma ser citado como um belo exemplo daquilo que não acrescenta nada à televisão brasileira e, portanto, contribui para o processo de perda de cultura que atravessamos. Sem tratar aqui do mérito dos candidatos selecionados ou da extrema mobilização da poderosa transmissora carioca a seu favor, o programa de bisbilhotagem da Rede Globo faz um enorme sucesso, praticamente em todos os âmbitos da nossa sociedade.

Diversos fatores contribuem para isso, como por exemplo o carisma de Pedro Bial (sim, foi brincadeira). No fundo, creio que o mesmo motivo que leva alguém a assistir a uma novela serve, analogamente, como estímulo para que o Big Brother seja visto. No entanto, essa não é a idéia do post de hoje.

Alguns poucos amantes do programa (e espero que muitos amantes desse blog, no dia em que existirem) devem conhecer o real significado da expressão que dá título à atração. A expressão "Grande Irmão" não faz sentido algum, pelo menos para quem não conhece um grande escritor da primeira metade do século XX. "Passamos a explicar", como diria meu professor Ciro.

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, é autor duas obras das mais cultuadas pelos amantes da política e da boa literatura atualmente. Os livros são "1984" e "A Revolução dos Bichos", cuja repercussão se percebe tanto pelo fato de ainda venderem bastante quanto pela influência que exercem, como veremos, desde jogos eletrônicos até a televisão (particularmente "1984", com relação à TV e jogos).

O escritor nasceu em Bengala, então sob o domínio inglês, e trabalhava como agente da polícia do Oriente na Birmânia. O modo como era obrigado a tratar um povo estrangeiro o tornou um crítico do imperialismo. Por sua ideologia, lutou contra o nazi-fascismo, apoiando a causa stalinista. Chegou a lutar na Guerra Civil Espanhola pelo Partido Operário de União Marxista. Após algum tempo, decepcionado com os rumos tomados pelo socialismo, em especial por sua faceta stalinista, Orwell dedicou-se a criticá-lo. Suas obras, entretanto, para mim podem ser vistas como críticas inclusive ao sistema capitalista, e tal noção fica mais clara se lembrarmos do período em que viveu no Oriente.

O livro "1984", publicado em 1949, retrata a vida de Winston Smith contra o sistema. Indignado, o personagem planeja uma rebelião contra o governo ditador e... Bem, não vou contar muito exatamente para que você leia, caso nunca o tenha feito. Apenas garanto que o livro é sensacional. Agora, vamos ao detalhe que interessa: a Eurásia, império do qual a Inglaterra, país em que Winston vivia, fazia parte, era regida pelo Grande Irmão. O modo que a política era conduzida chama a atenção: os cidadãos não podiam esboçar qualquer tentativa ou mesmo pensamento de se rebelarem contra o sistema; era proibido até se interessarem por pessoas do sexo oposto; diariamente, todos deviam adorar a figura do ditador, isso só para dar uma idéia de como era a vida do protagonista. O que se relaciona ao "BBB", o programa, é o fato de todas as cidades, inclusive as residências, serem vigiadas por câmeras, o que diminuía ainda mais a liberdade do povo.

Ora, é decepcionante ver que a beleza da crítica sobre um dos períodos mais tensos do século passado, feita por um genial observador que sequer possuía formação universitária, se traduziu de modo tão superficial em nossa cultura. Isso não é uma crítica apenas ao Brasil, claro (aliás, é o tema de meu próximo post, aguardem), considerando que o programa foi criado na Holanda, se não me engano. Hoje, "Big Brother" é um termo conhecido devido a uma atração conteúdo algum, e não a uma das maiores obras da literatura mundial. "BBB"? "Ah, é o programa que passa depois da novela". "Orwell"? "Não, nunca ouvi falar"...

Pra piorar, a Globo, até onde eu sei, jamais fez menção alguma ao escritor e à obra aos quais deveriam agradecer pelo título do programa. Seria o mínimo razoável, apesar de não constituir um bom modo de trazer o conhecimento. Qual a conclusão que se tira disso, tendo em vista que a cada ano o "BBB" bate recordes de audiência? A óbvia: infelizmente, informação não dá audiência. Antigamente, a escolha dos candidatos era feita de modo aleatório, por isso participavam pessoas das mais variadas idades e classes socias. Com muita boa vontade, podia ser considerado algo enriquecedor, dependendo do enfoque do espectador. Hoje, não. A justificativa foi dada pelo próprio produtor do programa: "as pessoas querem ver gente bonita". Ou seja, não é raro encontrar alguma modelo que já tirou a roupa por aí participando do Big Brother. Mais um modo de demonstrar como os valores se deterioram...

Explicando o título: o big do brother, hoje, é a aparência dos participantes... Até o ato de bisbilhotar soaria melhor, não concorda?

Termino citando uma frase que mostra o modo como Orwell enxergava o mundo. Bastante pessimista, porém até hoje encontra partidários:

"Se você quer uma imagem do futuro, imagine uma bota prensando um rosto humano para sempre" - G.Orwell, no livro "1984"

Abaixo, uma representação do Grande Irmão (representação pois não há ilustrações oficiais nem filme sobre a obra, infelizmente):



Um comentário:

  1. Eu confiaria no Tarantino ou no Kubrick para filmar o enredo. No one else!

    Minha alma de Jornalista/Comunicadora/Investigadora ainda vê na inutilidade do Big Brother uma utilidade científica comportamental.

    O programa foi criado por alguém que sabe sim quem é Orwell, conhece 1984, no entanto, o fez para o oposto. Caso contrário não renderia tanto.

    Aquela tal relação de dominação e efeitos verticais da comunicação, sociedade de massa, amorfa, inerte (hoje duramente criticados pelos estudiosos da área), you know?

    Dá uma boa tese... dá um bom resultado.

    1984 unido a Maravilhoso Mundo Novo é minha mini bomba atômica. Os 2 presságios preferidos desta que vos fala/escreve.

    ResponderExcluir

Talvez você se interesse por:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...