sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Resgatando a infância parte 2 - o preço da cultura

Continuando o espaço aberto na minha última postagem, fiquei com muita vontade de comprar aqueles discos de que falei, o Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta (editora Abril/RCA Victor, 1978) e Trem da Alegria ("He-Man", RCA Victor, 1986). Então voltei ao sebo no qual tinha encontrado tais raridades, mas só achei o da Mônica, o outro já tinham levado. Fiquei aborrecido, chateado pela oportunidade perdida e saí sem nem mesmo levar o outro disco.

Lembrei da minha máxima em relação aos sebos: quando você não quer, tem; quando quer, não tem. Se você deixar a oportunidade passar, nunca mais. Por menores que sejam suas expectativas sempre tem outro doido que quer comprar a mesma coisa que você e se você deixar, ele vai comprar.

E sei lá por qual motivo, fiquei obcecado por comprar a discografia completa do Trem da Alegria. Não para ouvir, pois a vitrola que tenho nem sei se funciona; a última vez que usei ficou repetindo as mesmas palavras, as mesmas palavras, as mesmas palavras... e já tenho a discografia em mp3.

Pensei: o sebo que visitei é o mais famoso de São Paulo; perto dele há vários outros sebos menos badalados. É pra eles que eu vou. Passei primeiro num em que havia o primeiro disco do Bozo, raridade total, e mais outras coisas incríveis como Atchim e Espirro (ouvia tanto eles quando tinha 4 anos...). Qual não foi minha surpresa quando encontrei noutro sebo uma sessão só com discos do Trem da Alegria? E lá estava o que eu queria e mais outros dois álbuns quase novos, todos com os encartes intactos. Dois custaram R$ 3 e um R$ 4.

Mais garimpagem. Um sebo com discos a R$ 1. Vários vinis de samba enredo (tenho um amigo que iria gostar disso), e achei o LP do Trem de 1990 e o outro, o Patrícia & Luciano - Clube da Criança, de 1984, o disco que deu origem ao grupo! Com encarte! A moça do caixa deu uma risadinha da minha compra, não sei se foi deboche... se foi, coitada, não teve infância...

Numa outra loja do mesmo sebo em que comprei os primeiros discos, encontrei mais um, esse lindão, o disco dentro do saquinho e tudo. O cara ainda limpou o disco para mim. R$ 2.

E, finalmente, na quinta-feira fui a um sebo em que nunca havia pisado e achei o mais difícil disco até agora, o de 1985 (Uni Duni Tê e Dona Felicidade). Mais dois reais.

Total do investimento: R$ 16 por sete discos e parte da minha infância recuperada.

Até então nunca havia comprado disco em sebo, mas livros jurídicos (achei Direitos Reais do Darcy Bessone por R$ 20! Que pechincha!), livros para o ócio (A Vida Espetacular de Silvio Santos, de 1972, que raridade), gibis (livro de tirinhas do Bidu, de 1973, por R$ 1 foi o melhor achado até hoje) e revistas (a Quatro Rodas Especial com o Senna campeão de 1988 é sensacional!). Adquirir esses bolachões foi de todas a experiência mais interessante. Falam muito que os vinis têm um som bem melhor do que o CD. Mas a experiência sensorial também é outra. Você tem contato com aquele discão, sente o cheiro (nesse caso, de poeira...), olha os detalhes da capa, do encarte, enorme, quase um pôster...

Lembrei-me dos povos antigos, para quem a experiência sensorial deve ser completa nos momentos prazerosos: num banquete, no sexo, numa cerimônia religiosa... pensei nos gregos, que quebravam os pratos no fim da refeição para ter a sensação auditiva, e, assim, alcançar a plenitude dos cinco sentidos naquela ocasião. Puxa vida, até isso nosso mundo atual está perdendo, com esses iPods da vida... ouvir música deixou de ser um ritual para ser algo tão banal e, pior, um instrumento de isolamento pessoal no dia-a-dia da cidade.

Tá legal, mas desviei totalmente do assunto. O tema aqui é "o preço da cultura". Vamos a ele.

Foi realmente surpreendente observar a disparidade de preços praticada entre os sebos do Centrão. O tal disco da Mônica e Cebolinha no Mundo de Romeu e Julieta, que quase comprei a R$ 3, encontrei noutro sebo por R$ 21! E em pior estado, até. O livro do Darcy Bessone que eu citei há pouco e que paguei R$ 20 já vi por R$ 110, nas mesmas condições de conservação.

Existem dois tipos de preço, o que o dono do sebo acha que vale e o que a gente acha que deveria valer. E há vários tipos de sebo, também. Tem os mais famosos, que vendem refugos a preços ínfimos e semi-novos, que têm mais procura, em detrimento das raridades. Tem aqueles que só tem poeira amontoada; tem outros que parece que passou um tornado dentro da loja e nada está no lugar, etc. O melhor sebo para se comprar coisas é aquele que não é especializado nelas; é o que chamo de sebo burro, pois não dá o valor certo às coisas, chuta o preço bem alto ou bem baixo. Se chutou baixo, compra logo, não perca a chance! Só que é preciso sorte para encontrar o que quer, justamente porque o sebo não é especializado, logo, os funcionários às vezes nem sabem do que você está falando.

Os discos que comprei servem de exemplo. Pelo preço que paguei por um quase novinho, podia ter levado outro exemplar rasgado, sujo e rabiscado pelo ex-dono, uma criança que estava em processo de alfabetização. E podia ter levado dois ou até três em outra loja.

Ir a sebos é uma experiência trash. Escadas sujas, corredores estreitos, estantes despencando, sobrelojas com buracos no piso. Os preços das coisas que comprei agradaram meu bolso, mas certamente são muito menores do que o valor real dessas coisas. Vi discos de tantos artistas, vivos e mortos, famosos e desconhecidos, e sei que há o valor afetivo de quem os comprará um dia. Mas penso no valor que vem da história do objeto. De como representam artistas que se dedicaram, lutaram, venderam milhares de cópias, e que um dia, esquecidos ou não, foram parar ali naquele lugar sujo e escuro, correndo riscos de se danificarem para sempre. Objetos que trazem neles a vida de alguém que os comprou numa loja, no Carrefour, no Paes Mendonça, deu de presente com dedicatória, ouviu, ficou triste quando riscou, teve que vender, se arrependeu disso (ou não)... E a história de quem um dia, de repente, achou naquele sebo imundo aquela bugiganga que achava que nunca mais iria ver novamente, que talvez sequer lembrasse que um dia havia existido, que faz lembrar dias felizes, que sempre quis ter mas nunca pôde, que enriquecerá sua vida.

Histórias assim entram e saem diariamente dos sebos. E valem muito mais do que os poucos reais que paguei. Melhor do que comprar coisas em site de leilão, melhor do que comprar coisas novas em shopping.

EM TEMPO
Estão me faltando os discos do Trem da Alegria de 1991 (com as músicas O Lobisomem e Estação Felicidade) e 1992 (uma coletânea, com 4 faixas inéditas, como Alguém no Céu, o único lançado em CD pela RCA/BMG-Ariola). Se alguém encontrar com encarte, inteirões, e se estiver barato, compre. Não perca oportunidades.

Vou deixar para meu amigo Daniel explicar em sua sessão cultural por que as lojas de coisas usadas chamam-se "sebos". A explicação é muito boa.

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