terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

O que é ser brega

Ontem de manhã ocorreu a solenidade de recepção aos calouros da Turma 181 da Faculdade de Direito do Largo São Francisco. Pela quinta vez, agora em meu último ano de graduação, estive lá para ver, com o peculiar desinteresse de veterano, o que se passava, e sondar as expressões deslumbradas dos novos alunos.

Eis que surge o diretor, prof. Rodas, devidamente paramentado para a solenidade, com beca e tudo. Faz uma saudação e convida a todos a, de pé, ouvirmos o Hino Nacional, tocado pela Banda Marcial da Polícia Militar. Após o hino (que bom, não houve aplausos), Rodas diz algumas palavras piegas sobre a música estimular e provocar nossas emoções. Fala com conhecimento de causa, pois estudou música.

E então, o inesperado.

Para mim foi inacreditável a Banda Marcial da Polícia Militar comparecer à Aula Magna de abertura do ano letivo de 2008 para tocar o que tocou. "My Way"! Não quero desmerecer a música composta por Paul Anka, que é bonita e que todos conhecem das magistrais e definitivas interpretações do próprio Anka, de Elvis Presley e Frank Sinatra, sendo também famosa a tradução livre feita pelo saudoso Hélio Ribeiro em seu programa na Rádio Bandeirantes (ele que inventou esse negócio do locutor dizer os versos em português enquanto uma música estrangeira é executada na rádio, e que hoje qualquer FM chinfrim faz). Da mesma maneira, não quero desmerecer a Banda, que tocou muito bem a música.

Mas... que repertório foi esse? My Way tem aquela cara de despedida, e não de chegada. E era a chegada dos calouros! Para mim, mais do que uma escolha inadequada, aquilo foi a definição do que é ser "brega".

My Way, naquela hora, virou uma música brega. Percebi que brega não é o que é cafona, fora de moda ou de mau gosto, como costumamos pensar, mas o que está no lugar errado ou na hora errada. Casamentos e formaturas têm seus momentos que podem ser considerados brega, como aquela valsa de Schubert tocada num tecladinho Casio, que logo depois vai tocar também um forrózinho que só tem dois acordes. Ser brega é uma questão que transcende as classes sociais.

Existem as coisas chamadas de brega que são institucionalizadas e, por isso, aceitas. Como várias canções de Roberto Carlos ou aqueles trajes "a rigor" que se aluga para ir a festas. As outras, que vão chegando, não conseguem escapar do rótulo: jacu, cafona... olha aquela roupa, ouve essa música... em geral o que vem dos estados do Norte e Nordeste sofrem mais dessa aversão dos sulistas. Calypso é brega? Todo mundo acha. Mas todo mundo já dançou um dia macarena e lambada, com o lenço da viúva Porcina e não achou brega.

Não concordo com essa alcunha: "brega", nesses casos que citei. Ainda bem que hoje em dia os tabus em relação a esse termo já estão caindo. O que é brega é o que é popular, e finalmente estamos percebendo isso. O Brasil é um país brega.

Por outro lado, o "brega" que ocorreu na Aula Magna da Faculdade é outro: o verdadeiro brega, o que não se enquadra no contexto. Com a pompa que se esperava do evento, com a presença da banda marcial, poder-se-ia esperar uma marcha ou um hino. Uma música popular, se a ocasião fosse mais informal. Para mim, soou mal, estranho demais, surpreendente. Brinquei com uns amigos que poderiam ter trazido o Tony Bennett para a sessão, que ficaria bastante adequado.

A música é bonita, todos conhecem e gostam, foi bem executada, todo mundo aplaudiu. Mas era para ser uma solenidade e não um banquete, uma formatura, um casamento, um batizado, um aniversário de um cara chique no úrtimo de família quatrocentona. Por isso, achei brega, e entendi o significado dessa palavra. Mas podia ter sido pior: poderiam ter mandado tocar o "Tema da Vitória", e ter aparecido uma estátua viva fazendo uma performance com a bandeira do Brasil. Ainda bem que foi só isso o que aconteceu.

"Yes, it was my way..."

3 comentários:

  1. Nossa, Hamilton, resumiu tudo.
    Quantas vezes não me deparei com uma situação na qual fazia piadinha (jura?) de algo que acha "ridículo" exatamente por não combinar com o momento?

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  2. Fala Hamnilcton!

    Gostei da definição de "brega" como algo não exatamente ridículo, mas fora de lugar!

    Legal que achou meu blog, o seu já está devidamente linkado!

    Como sei que voce curte o que se refere a transporte público... dê uma olhada nesse texto "Notas do (Transporte) Subterrâneo" no meu outro blog: http://notassubterraneas.blogspot.com/2008/01/notas-do-transporte-subterrneo.html

    Abraço!

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  3. Muito bom!!!

    Um dos melhores textos que li ultimamente... ah, e você esqueceu da versão dos Ramones pra essa músia, que é muito boa! hhahahahaa..

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