segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

"Que que, não!!!"

Finalmente, vamos ao meu segundo post. Continuando a história da idéia do blog...

O melhor professor que eu já tive era do colégio e cursinho, anos de 2002 e 2003. Matéria: história, uma das minhas preferidas. Na primeira aula, as piores impressões: um homem turrão, zangado, extremamente mal-humorado. Com problemas de vista por erro médico, enxergava muito mal, mas ouvia qualquer chiado dos alunos. No entanto, desenhava os mapas mais perfeitos que já vi. E não admitia em sala os "covardes" que assobiavam para as meninas quando estas voltavam do banheiro. Assobiou, era mandado pra fora. Tinha convicções firmes: era ateu e abstêmio. O interessante era que muitos alunos mal sabiam o que significava o adjetivo "abstêmio", ou seja, pessoa que não toma bebidas alcoólicas. Ironicamente, isso sustentava um de seus maiores dogmas: "a cada ano, os alunos pioram. Neste ano ensinarei menos que ensinei ano passado, e mais que ensinarei ano que vem".

Bom, apesar de quase todo primeiro encontro ser desastroso, essa primeira aula tinha mais cara de pesadelo... Muitas vezes os alunos não sabiam as respostas das perguntas e eram severamente reprimidos. O argumento ia ganhando força, afinal no ano anterior haviam respondido... Parece até coisa de filme. Aos poucos, fui me acostumando com a idéia, e assistir à aula sob pressão acabava sendo um estímulo para tentar responder até as piores perguntas, como qual o país totalmente neutro, tirando a Suíça, que participou da ONU desde o seu início. Ou então qual os produtos mais exportados durante a revolução agrícola brasileira, no século XVIII, e o surpreendente primeiro colocado. Até as cores da obra "Guernica", de Picasso, eram tema de perguntas. Sim, não são perguntas fáceis mesmo, a exigência era bem grande, pelo menos para a maioria dos alunos.

Com o tempo, comecei a refletir sobre as idéias desse professor, em vez de achá-las conservadoras demais. E vi que ele tinha uma razão considerável em suas críticas. Não é preciso uma análise extensa, tampouco profunda, para constatarmos que o nível cultural dos estudantes de hoje está decaindo... Como disse meu companheiro em seu último post, atualmente os programas infantis não seriam exibidos em horário nobre há décadas atrás. Crianças hoje lêem Harry Potter, em oposição a Monteiro Lobato. Não se ouve MPB ou bossa nova, mas sim Rebelde e punk rock (gênero preferido pelos "emos", diga-se de passagem), com letras depressivas e banais. Xadrez, pião e bola de gude foram praticamente esquecidos nas classes mais favorecidas, dando lugar a videogames, o que além de tudo contribui para hábitos pouco saudáveis. Nem é preciso ir tão longe: há anos a Cultura não emplaca um sucesso inteligente e educativo ao mesmo tempo, como o Rá-tim-bum.

Infelizmente, passei, anos depois, a concordar com as idéias desse respeitável mestre. A necessidade de uma vida mais rica culturalmente, e com menos novelas, Big Brothers, Caldeirões, Domingões e Ratinhos é evidente. Se você está lendo esse blog, provavelmente também compartilha esse sentimento, e busca, na medida do possível, enriquecer culturalmente o seu dia-a-dia. Assim sendo, tentaremos inaugurar também as sementes de cultura. Hoje, fica apenas uma pergunta: você sabe quais são as sete maravilhas do mundo antigo? Não vale usar o Google! A resposta virá no próximo post, continue acompanhando!

O título do post vem de uma famosa frase do professor. Praticamente todos nós temos mania de utilizar o "que" indevidamente ao fazermos perguntas informalmente. Certa feita iniciei uma pergunta simples, de modo coloquial mesmo: "professor, o que que..." e fui repreendido com um "que que, NÃO!!!", sutil como a queda de um meteoro. Lição mais direta que essa, impossível (não estou defendendo o método, apenas realçando sua eficácia). Além de ser um poço de sabedoria, o cidadão conhecia o português como ninguém, acabando por ensinar alguns detalhes interessantes aos alunos.

Fica aí uma pequena demonstração desse grande homem:
http://www.youtube.com/watch?v=hLSCEA8SaV8

2 comentários:

  1. acho que muitos professores pensam como esse seu professor Ciro... o problema é o conformismo. Nem todos tem coragem de assumir essa opinião, sem contar que esse sentimento também desmotiva os professores, tornando a decadência um círculo vicioso entre mestres e alunos.

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  2. Minha vida seria muito mais feliz se eu me contetasse com o Big Brother...

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