sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Parabéns São Paulo!

No Estadão de hoje saiu o resultado de uma pesquisa do Ibope em que se nota a quantidade pequeníssima de pessoas que freqüentam teatros, restaurantes, salas de espetáculo, concertos, eventos esportivos, parques e até cinemas. Entrevistados reconhecem que pouco sabem sobre a História da cidade, restringindo seu conhecimento aos arredores da casa em que moram. Nada disso é novidade, mas com os dados e os infográficos, tudo fica escancarado.

Virei algumas páginas e tinha um anúncio da Camisaria Colombo. O texto falava da cidade miscigenada, de italianos, japoneses, árabes, negros etc. e da empresa que veste a todos. E ilustrava a propaganda a foto de dois yuppies "brancos e da elite" engravatados, andando pelos Jardins. Que contradição!, pensei. Depois, abri o Guia do fim de semana que acompanha o jornal. Tinha uma reportagem sobre as ruas dos sonhos... logradouros hipotéticos em que haveria cinema, balada, café parisiense, bistrô, restaurante, boutique, Sapataria do Futuro etc.

Aí matei a charada. É óbvio. Não é que as pessoas são incultas e ignorantes e por isso não freqüentam lugares e eventos. É que ninguém tem dinheiro para bancar isso! O jornal e o Guia são feitos para ser lidos e consumidos por poucos, gente rica, de posses, com condições de gastar nessas coisas que poderiam ser chamadas até de supérfluas... Mas não é culpa do jornal; é que quem os lê de fato são as pessoas "ricas". Pobre, que compõe a maioria esmagadora, tem outro tipo de jornal, em que o único encarte é o Cadernão de Ofertas das Casas Bahia. Se lê Estadão ou a Folha, não pega no Guia, mas sim na página de esportes, na seção policial, nos classificados...

E o fato de as pessoas não saberem nada sobre a história da cidade? As pessoas têm alguma idéia disso e daquilo, que vêm da educação formal. Mas, para os pobres, a cidade é voltada para o trabalho, não para o lazer... e querem dela fugir quando há tempo e quando é possível, de volta para a terra natal, ou para rever parentes em outro lugar mais calmo.

Em suma, São Paulo são duas cidades. A cidade rica, que têm opções mil de diversão, cultura e arte, e a dos pobres, que tem a perfeita tradução do Premeditando o Breque (música São Paulo, São Paulo, LP Quase Lindo, 1984): "na periferia, a fábrica escurece o dia..." e nada mais.

Desculpem o estereótipo "rico" e "pobre" e a simplificação utilizada por mim. Fiz intencionalmente para buscar resumir a idéia.

Para terminar, um lamento. Já está mais do que na hora de se acabar com o bolo do aniversário de São Paulo. Acabar no sentido de nunca mais fazer, e não no sentido de destruir. Pois foi nesse outro sentido que terminou a festa deste ano: http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid115122,0.htm. Os paulistanos são selvagens diariamente, no trânsito, no dia-a-dia atribulado. Bem que podiam dar sossego para a cidade no dia de seu aniversário.

Hoje também é aniversário de um grande amigo... alô, Drino, um abraço!

3 comentários:

  1. Olá!

    Bastante interessante a sua perspectiva do "desinteresse" do paulistano pela diversidade cultural que a cidade oferece. Mais interessante ainda porque recentemente, conversando com um amigo, nós chegamos ao mesmo ponto abordado pelo seu texto. O fato é que, deixando um pouco de lado a dicotomia pobre/rico, São Paulo tem um sub-aproveitamento de tudo. Aí tem muitos pobres? Sim... muitos mesmo. Mas também tem muitos ricos. Os mesmos ricos que lêem A Folha e o Estadão. No entanto, o Ibope continua mostrando que a cidade produz para poucos.

    Recentemente tive a oportunidade de conhecer a terra da garoa. Sou de Teresina-PI e você deve ter noção de que o gigantismo da cidade me impressionou um bocado. E, mesmo sem muita grana e com pouquíssimo tempo, eu fui a uma mostra de cinema que teve no MASP, a um espetáculo teatral que não me custou mais de R$15,00 (preço na faixa do que cobram aqui em Teresina, uma cidade incrivelmente pobre, comparando-se com Sampa), num show de Blues onde a entrada era R$3,00 (isso mesmo, três reais). Depois de ter torrado R$100,00 em um só dia de Tim Festival, não me restou muito mais dinheiro pra que eu pudesse esbanjar por aí. Mas eu me diverti bastante.

    Eu vejo esse problema por uma perspectiva parecida com a sua. Acho que o paulistano rico se cerca muito no seu mundo, no seu bairro. Tudo aí é tão gigante que tem verdadeiras cidades como bairros. Ele deixa de expandir sua zona de conhecimento porque acha que aquilo que tem por perto lhe basta. Enquanto isso, eu e mais um punhado de teresinenses rodamos a cidade toda em uma hora, não encontramos muitas opções e desejamos ardentemente morar num lugar onde nos ofereçam ao menos possibilidades, o tal direito de escolha. Mas será que, se morássemos por aí, não nos cercaríamos no nosso mundinho também?

    Conheço pessoas que moram aí há mais de 10 anos, conhecem várias capitais do Brasil e só 3 bairros da cidade onde passam 10 meses por ano. E a impressão que eles têm é a de que tudo sempre estará lá, então, não precisa ter pressa.

    Já o paulistano pobre tem mesmo que dar conta da sua jornada diária, da sua economia mensal e pouco tempo e disposição sobram pra que ele possa explorar toda a riqueza cultural que São Paulo proporciona. Mas, se ele quiser, ela estará lá, independente de ser anunciada na Folha ou no Estadão. Aliás, o veículo que ainda atinge a maior parte da população brasileira é a TV.

    É como dizem, aí tem tudo e todos!

    Posso favoritar vocês?

    P.S.: Desculpa o post na caixa de comentários! =x

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  2. Concordo PLENAMENTE com a questão do bolo.

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  3. Belo post, definiu muito bem a "bolha cultural" existente em São Paulo. Quanto à questão do bolo, realmente lamentável...

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