quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O jumento ficou burro

Há vinte anos, um conjunto infantil fazia estrondoso sucesso na televisão. Hoje, nada disso existe: conjunto virou "banda", mesmo quando não há instrumentistas, como o Calypso, banda formada por uma vocalista, um guitarrista e vários dançarinos; estrondoso sucesso deu lugar a efêmeros e meteóricos destaques, os chamados quinze minutos de fama, se é que isso já é considerado muito tempo; televisão virou algo que ainda não defini; e infantil virou pré-adolescente, senão adolescente, mesmo. Antes que comece a discursar sobre a redução cada vez mais acentuada da infância na vida moderna, vou retomar a idéia.

O grupo ao qual me referi é o Trem da Alegria, impulsionado pelo talento precoce de sua formação original, Luciano, Patrícia e Juninho Bill, depois acompanhados por Vanessa, Amanda, Rubinho e Rick, e com o suporte das grandes composições da dupla hitmaker Michael Sullivan e Paulo Massadas.

Na onda retrô dos anos 1980, que hoje atinge aqueles que naquela época tiveram sua infância, recorda-se uma das músicas mais famosas do Trem, A Orquestra dos Bichos (de 1987, RCA, composição de Chico Roque e Carlos Colla). A canção fala de um jumento que, ao descobrir ser um gênio no que se refere à música, decide reunir seus amigos bichos da fazenda e da floresta para montar uma orquestra... daí a galinha vai para o microfone e se torna a galinha cantora mais famosa do Brasil. Todo mundo conhece.

O que me chamou a atenção foi o jumento. Pois duas décadas depois, fazia sucesso outra música, um funk, em que o jumento saía para passear com a égua Pocotó (Egüinha Pocotó, 2003, RDS, composição de MC Serginho)... como bem próprio da contemporaneidade, uma letra chula, com erros de concordância e fraqueza musical e de interpretação. Quanta diferença em comparação ao jumento de vinte anos atrás!

Nenhuma das duas músicas está nas paradas. A era da música infantil acabou deixando as crianças de hoje órfãs de algo realmente voltado a elas. O funk tem seu espaço e seu público. Mas fica o exemplo. Daqui a uns quinze, vinte anos, vai ter uma onda retrô dos anos 2000, igual a que temos hoje dos oitenta, e já tivemos dos setenta, dos sessenta, dos cinqüenta... e, uma pena, o jumento que será lembrado não vai ser o artista, que toca e canta com seus amigos bichos nem as crianças talentosas. Vai ser o outro, que sai para passear com o cavalinho e a egüinha...
Resta destacar a interessante experiência promovida em sala de aula por uma professora carioca, valendo-se da égüinha. Calma, não é nada obsceno: http://www.multirio.rj.gov.br/sec21/chave_artigo.asp?cod_artigo=723

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