quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Maniqueísmo, debate e audiência

A fórmula "o bem contra o mal" é o que de mais velho há para a construção de um enredo. Folhetins, novelas, filmes e demais babaquices hollywoodianas bebem e se esbaldam nessa fonte. Embora esse antagonismo perfeito esteja fora de moda em seu uso literário-dramatúrgico, ante a adoção de uma visão mais realista dos comportamentos sociais, tem uso popular, fazendo "vítimas".

Muitas vezes as pessoas tecem considerações nesse tom para defender seus pontos de vista. Exageram na crítica, extrapolam a dose negativa daquilo que lhes é contrário e jogam todo o confete (aproveitando a proximidade das festas de Momo) no que lhes é caro. É comum nos debates, nos bate-bocas, nas conversas de bar. É a típica defesa apaixonada de seus pontos de vista; apaixonada, porém cega à opiniões divergentes.

Tudo isso porque quero chegar à pontinha de um iceberg. É a guerra de audiência e de valores ora travada entre a TV Globo e a emergente Record. A Rede Record aumentou seus índices de audiência e não esconde de ninguém que sua grande pretensão é alcançar a primeira colocada, esnobando a vice-líder, o SBT. E faz diversas provocações à posição da concorrente.

A Globo sempre fora taxada de bairrista, de apoiadora da ditadura militar, de monopolista, aquela televisão sempre em conluio com os políticos poderosos, elitizada, que faz censura etc. Críticos propagandeiam o documentário "Muito Além do Cidadão Kane" (Beyond Citizen Kane, 1993, dir. Simon Hartog), da Channel 4 de Londres, cuja exibição é proibida no Brasil, e que mostra os bastidores políticos da Vênus Platinada. Existe muita hipocrisia em relação a esta estação de TV. Sempre teve uma relação de amor e ódio com o público, que afirma que não gosta dela, mas não arreda em assisti-la.

Com a ascensão da emissora paulista, passou-se a ouvir com maior freqüência comentários de satisfação com a aparente crise da líder carioca. Ao mesmo tempo em que criticam a rede dos Marinho, exaltam a rede dos Macedo. A Record veio para escancarar a sujeira da Globo, ela vai derrubar a Globo e acabar com seu poder! O monopólio vai acabar, é o que dizem por aí. Alerta, alerta. Maniqueísmo detectado! Mocinho e bandido encontrados. A Globo já atacou a Igreja Universal por diversas vezes, denunciando extorsões, charlatanismo, curandeirismo e métodos aéticos de pegar dinheiro dos fiéis. A Record e a IURD também já fizeram denúncias e apresentaram na TV os financiamentos do BNDES para saldar dívidas globais. E não pára por aí.

Tal guerra mercadológica deixa esse fruto trágico para o bom debate, o do maniqueísmo. E essa visão distorcida da realidade nos questiona as razões de tamanha intolerância. Seria em razão da solidez da opinião dos defensores de cada corrente? Ou a ignorância em relação aos assuntos em pauta, talvez caracterizada pela ação de formadores de opinião mal-intencionados ou igualmente despreparados? O que, afinal, faz com que as pessoas tenham uma visão de mundo tão restrita?

Não podemos esquecer que a acirrada disputa entre as emissoras faz levantar discussões religiosas e morais, já que a Record ergue suas bandeiras e também brande contra o catolicismo e a favor do aborto. Personalidades polêmicas, como o pastor Silas Malafaia, que já bradou contra a Globo, emissora "do demônio", agora alarde seus fiéis em repulsa à Record, que, em sua visão, se "encapetou" ao invés de ser um instrumento evangelizador.

Como disse, é só a ponta do iceberg. Seja futebol, política, religião, TV, qualquer coisa... nos debates estará o maniqueísmo. E se não houver argumento, basta ofender o adversário, desqualificando-o... mas aí já é outra história.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Sementes de cultura 1 - As sete maravilhas do mundo antigo

Como prometi, inauguro nesse post as sementes de cultura, visando criar uma atração diferente para o blog. Ah, desculpem-me pela formatação das imagens, eu não sei como mexer melhor nisso aqui no blog, ainda não conheço todos os recursos...

Na Idade Antiga, que se encerrou em 476 d.C., sete belos monumentos construídos pelo homem desfrutavam de tamanho destaque que foram considerados como "maravilhas" da época. Quando criança, eu imaginava que obras como a Torre Eiffel e a Estátua da Liberdade eram maravilhas do mundo. Desconhecia que houve monumentos muito mais grandiosos...

Sem mais delongas, vamos a uma breve explanação sobre cada uma das fantásticas obras da Antiguidade. A primeira imagem de cada maravilha (ou, mais precisamente, de 6 delas) é uma reconstituição feita por computador, interessante pois tenta reproduzir as construções de modo imparcial. Além disso, colocarei outras imagens, de modo que o leitor possa lembrar-se delas mais facilmente (o que a meu ver sempre foi um fator que dificulta que as pessoas conheçam bem as clássicas construções: a inexistêcia de registros fotográficos, com exceção das Pirêmides de Gizé). Aproveitando a deixa, começarei pela maravilha grega.


Estátua de Zeus (Júpiter) em Atenas


A obra, que representa o maior deus da mitologia antiga em seu trono no Olimpo (daí a denominação "Deus Olímpico" utilizada por alguns) foi construída no século V antes de Cristo, provavelmente no ano de 447 a.C. Feita de marfim e ébano, seu tamanho estimado é de 12 a 18 metros de altura. No ano de 475 d.C., foi destruída por um incêndio. Detalhe interessante: na mitologia romana, Zeus era chamado de "Júpiter". Podemos ter uma idéia aproximada do aspecto da estátua pelas moedas de Elis, que traziam a imagem de Zeus conforme representado pelo monumento:





Farol de Alexandria




Esta maravilha foi construída em mármore branco, no ano de 280 a.C., a mando do faraó Ptolomeu II, na ilha de Pharos. O nome da ilha originou a expressão "farol", essa é uma curiosidade interessante. Centenas de homens mantinham acesa uma chama no topo e mecanismos registravam a direção dos ventos e as horas. Um complexo sistema de espelhos fazia com que a chama fosse vista a até 50 kilômetros de distância. A estrutura media aproximadamente 134 metros de altura e foi destruída por um terremoto, em 1302 d.C.

A cidade de Alexandria localiza-se no delta do rio Nilo, às margens do Mar Mediterrâneo. É a segunda maior cidade do Egito, e possui dos maiores portos do Mediterrâneo. Fundada em 332 a.C., por Alexandre, o Grande, teve papel eminente no último período da antigüidade egípcia. Durante séculos Alexandria foi a capital do Egito e a capital cultural do mundo. Esse selo egípcio, emitido em 1998, mostra o farol:



Jardins suspensos da Babilônia




Foram construídos por ordem do poderoso Nabucodonosor II, em 600 a.C. Os jardins eram formados por 6 montanhas artificiais, apoiadas em colunas de 25 a 100 metros de altura, ao sul do rio Eufrates. Os terraços foram construídos um em cima do outro e eram irrigados pela água bombeada do rio Eufrates. Nesses terraços estavam plantadas árvores e flores tropicais e alamedas de altas palmeiras. Dos jardins podiam ser vistas as belezas da cidade. Nabucodonosor também construiu a Torre de Babel (que hoje é mais conhecida como novela da Rede Globo). Abaixo, os Jardins com a Torre de Babel ao fundo:




Templo de Ártemis (ou Diana) em Éfeso



O Templo de Ártemis foi erguido por Creso, rei da Lídia entre 560 a 547 a.C., na cidade de Éfeso, situada na antiga Província da Ásia Menor (atual Turquia). Homenageava a deusa da caça e dos animais selvagens, Ártemis, chamada de Diana pelos romanos.

O Templo foi reconstruído e aumentado várias vezes, tendo se tornado uma maravilha após a quarta expansão. Após concluído virou atração turística com visitantes de diversos lugares entregando oferendas, e foi destruído em 356 a.C. por Eróstrato, que acreditava que destruindo o templo de Ártemis ficaria mundialmente conhecido (que espírito de porco!). Alexandre ofereceu-se para restaurar o templo, mas ele começou a ser reconstruído só em 323 a.C., ano da morte do macedônio. Mesmo assim, em 262 d.C., ele foi novamente destruído, desta vez por um ataque dos godos. Com a conversão dos cidadãos da região e do mundo ao cristianismo, o templo foi perdendo importância e veio abaixo em 401 d.C. Hoje existe apenas um pilar da construção original em suas ruínas, como podemos ver abaixo:




Mausoléu de Halicarnasso


O mausoléu foi o túmulo que a rainha Artemísia II, de Cária, mandou construir sobre os restos mortais de seu irmão e marido (que coisa, não?), o rei Mausolo, em 353 a.C. Hoje, os fragmentos desse monumento são encontrados no Museu Britânico, em Londres, e em Bodrum, na Turquia. A palavra mausoléu é derivada de Mausolo, e hoje o termo é empregado com o significado de sepulcros suntuosos. Abaixo, uma representação artística baseada em descrições:


Colosso de Rodes

O Colosso de Rodes era uma gigantesca estátua do deus grego Hélios, situada na entrada marítima da ilha grega de Rodes, no Mar Mediterrâneo, que media aproximadamente 32 metros. Representava o deus sol Hélio (daí a expressão heliocentrismo), conhecido como Apolo pelos romanos. Foi esculpida em bronze, no ano de 280 a.C. Tal estátua guardava a entrada do porto e foi destruída em um terremoto no ano de 224 a.C.

Os barcos que adentrassem a ilha passavam por entre suas pernas, visto que a estátua possuía um pé em cada canal. A foto dessa maravilha é diferente das outras pois em reconstituição computadorizada não era possível visualizar esse detalhe. Na mão direita do monumento havia um farol. Tratava-se de construção tão imponente que um homem de estatura normal não conseguia abraçar seu polegar. Foi feita para comemorar a retirada das tropas macedônias que tentavam conquistar a ilha. O material utilizado para sua confecção foram armas abandonadas pelos macedônios no lugar. Apesar de imponente, ficou em pé durante apenas 55 anos, sendo abalada por um terremoto. Após centenas de anos, aproximadamente em 656 d.C., os fragmentos da estátua, esquecida no fundo do mar, foram vendidos como sucata e derretidos.


Pirâmides de Gizé

Finalmente, chegamos à última maravilha, a única que ainda mantém-se em pé e que, exatamente por esse motivo, é a mais lembrada. São 3 sepulturas de faraós, contruídas na planície de Gizé, a 15 quilômetros de Cairo, entre 2.650 e 2.550 a.C. Trata-se, portanto, da maravilha mais antiga. Queóps, Quéfren e Miquerinos são tumbas para os reis Khufu (Queóps), Quéfren, e Menkaure (pai, filho e neto). A primeira delas, Queóps, chamada de Grande Pirâmide, possui 147 metros de altura e foi a mais alta obra feita pelo homem durante mais de quatro mil anos, sendo superada apenas em 1889, com a construção da Torre Eiffel.

Abaixo, vemos as pirâmides no primeiro selo postal emitido pelo Egito, em 1933:



Um cartão postal da época de 1900 também traz os monumentos:




Bom, finalizo meu post por aqui. Tentei mesclar artigos com informações da Wikipedia, de modo a trazer todos os dados relevantes para esse texto, bem como algumas curiosidades interessantes. Espero que a informação tenha sido interessante! Até a próxima.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Parabéns São Paulo!

No Estadão de hoje saiu o resultado de uma pesquisa do Ibope em que se nota a quantidade pequeníssima de pessoas que freqüentam teatros, restaurantes, salas de espetáculo, concertos, eventos esportivos, parques e até cinemas. Entrevistados reconhecem que pouco sabem sobre a História da cidade, restringindo seu conhecimento aos arredores da casa em que moram. Nada disso é novidade, mas com os dados e os infográficos, tudo fica escancarado.

Virei algumas páginas e tinha um anúncio da Camisaria Colombo. O texto falava da cidade miscigenada, de italianos, japoneses, árabes, negros etc. e da empresa que veste a todos. E ilustrava a propaganda a foto de dois yuppies "brancos e da elite" engravatados, andando pelos Jardins. Que contradição!, pensei. Depois, abri o Guia do fim de semana que acompanha o jornal. Tinha uma reportagem sobre as ruas dos sonhos... logradouros hipotéticos em que haveria cinema, balada, café parisiense, bistrô, restaurante, boutique, Sapataria do Futuro etc.

Aí matei a charada. É óbvio. Não é que as pessoas são incultas e ignorantes e por isso não freqüentam lugares e eventos. É que ninguém tem dinheiro para bancar isso! O jornal e o Guia são feitos para ser lidos e consumidos por poucos, gente rica, de posses, com condições de gastar nessas coisas que poderiam ser chamadas até de supérfluas... Mas não é culpa do jornal; é que quem os lê de fato são as pessoas "ricas". Pobre, que compõe a maioria esmagadora, tem outro tipo de jornal, em que o único encarte é o Cadernão de Ofertas das Casas Bahia. Se lê Estadão ou a Folha, não pega no Guia, mas sim na página de esportes, na seção policial, nos classificados...

E o fato de as pessoas não saberem nada sobre a história da cidade? As pessoas têm alguma idéia disso e daquilo, que vêm da educação formal. Mas, para os pobres, a cidade é voltada para o trabalho, não para o lazer... e querem dela fugir quando há tempo e quando é possível, de volta para a terra natal, ou para rever parentes em outro lugar mais calmo.

Em suma, São Paulo são duas cidades. A cidade rica, que têm opções mil de diversão, cultura e arte, e a dos pobres, que tem a perfeita tradução do Premeditando o Breque (música São Paulo, São Paulo, LP Quase Lindo, 1984): "na periferia, a fábrica escurece o dia..." e nada mais.

Desculpem o estereótipo "rico" e "pobre" e a simplificação utilizada por mim. Fiz intencionalmente para buscar resumir a idéia.

Para terminar, um lamento. Já está mais do que na hora de se acabar com o bolo do aniversário de São Paulo. Acabar no sentido de nunca mais fazer, e não no sentido de destruir. Pois foi nesse outro sentido que terminou a festa deste ano: http://www.estadao.com.br/cidades/not_cid115122,0.htm. Os paulistanos são selvagens diariamente, no trânsito, no dia-a-dia atribulado. Bem que podiam dar sossego para a cidade no dia de seu aniversário.

Hoje também é aniversário de um grande amigo... alô, Drino, um abraço!

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

"Que que, não!!!"

Finalmente, vamos ao meu segundo post. Continuando a história da idéia do blog...

O melhor professor que eu já tive era do colégio e cursinho, anos de 2002 e 2003. Matéria: história, uma das minhas preferidas. Na primeira aula, as piores impressões: um homem turrão, zangado, extremamente mal-humorado. Com problemas de vista por erro médico, enxergava muito mal, mas ouvia qualquer chiado dos alunos. No entanto, desenhava os mapas mais perfeitos que já vi. E não admitia em sala os "covardes" que assobiavam para as meninas quando estas voltavam do banheiro. Assobiou, era mandado pra fora. Tinha convicções firmes: era ateu e abstêmio. O interessante era que muitos alunos mal sabiam o que significava o adjetivo "abstêmio", ou seja, pessoa que não toma bebidas alcoólicas. Ironicamente, isso sustentava um de seus maiores dogmas: "a cada ano, os alunos pioram. Neste ano ensinarei menos que ensinei ano passado, e mais que ensinarei ano que vem".

Bom, apesar de quase todo primeiro encontro ser desastroso, essa primeira aula tinha mais cara de pesadelo... Muitas vezes os alunos não sabiam as respostas das perguntas e eram severamente reprimidos. O argumento ia ganhando força, afinal no ano anterior haviam respondido... Parece até coisa de filme. Aos poucos, fui me acostumando com a idéia, e assistir à aula sob pressão acabava sendo um estímulo para tentar responder até as piores perguntas, como qual o país totalmente neutro, tirando a Suíça, que participou da ONU desde o seu início. Ou então qual os produtos mais exportados durante a revolução agrícola brasileira, no século XVIII, e o surpreendente primeiro colocado. Até as cores da obra "Guernica", de Picasso, eram tema de perguntas. Sim, não são perguntas fáceis mesmo, a exigência era bem grande, pelo menos para a maioria dos alunos.

Com o tempo, comecei a refletir sobre as idéias desse professor, em vez de achá-las conservadoras demais. E vi que ele tinha uma razão considerável em suas críticas. Não é preciso uma análise extensa, tampouco profunda, para constatarmos que o nível cultural dos estudantes de hoje está decaindo... Como disse meu companheiro em seu último post, atualmente os programas infantis não seriam exibidos em horário nobre há décadas atrás. Crianças hoje lêem Harry Potter, em oposição a Monteiro Lobato. Não se ouve MPB ou bossa nova, mas sim Rebelde e punk rock (gênero preferido pelos "emos", diga-se de passagem), com letras depressivas e banais. Xadrez, pião e bola de gude foram praticamente esquecidos nas classes mais favorecidas, dando lugar a videogames, o que além de tudo contribui para hábitos pouco saudáveis. Nem é preciso ir tão longe: há anos a Cultura não emplaca um sucesso inteligente e educativo ao mesmo tempo, como o Rá-tim-bum.

Infelizmente, passei, anos depois, a concordar com as idéias desse respeitável mestre. A necessidade de uma vida mais rica culturalmente, e com menos novelas, Big Brothers, Caldeirões, Domingões e Ratinhos é evidente. Se você está lendo esse blog, provavelmente também compartilha esse sentimento, e busca, na medida do possível, enriquecer culturalmente o seu dia-a-dia. Assim sendo, tentaremos inaugurar também as sementes de cultura. Hoje, fica apenas uma pergunta: você sabe quais são as sete maravilhas do mundo antigo? Não vale usar o Google! A resposta virá no próximo post, continue acompanhando!

O título do post vem de uma famosa frase do professor. Praticamente todos nós temos mania de utilizar o "que" indevidamente ao fazermos perguntas informalmente. Certa feita iniciei uma pergunta simples, de modo coloquial mesmo: "professor, o que que..." e fui repreendido com um "que que, NÃO!!!", sutil como a queda de um meteoro. Lição mais direta que essa, impossível (não estou defendendo o método, apenas realçando sua eficácia). Além de ser um poço de sabedoria, o cidadão conhecia o português como ninguém, acabando por ensinar alguns detalhes interessantes aos alunos.

Fica aí uma pequena demonstração desse grande homem:
http://www.youtube.com/watch?v=hLSCEA8SaV8

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O jumento ficou burro

Há vinte anos, um conjunto infantil fazia estrondoso sucesso na televisão. Hoje, nada disso existe: conjunto virou "banda", mesmo quando não há instrumentistas, como o Calypso, banda formada por uma vocalista, um guitarrista e vários dançarinos; estrondoso sucesso deu lugar a efêmeros e meteóricos destaques, os chamados quinze minutos de fama, se é que isso já é considerado muito tempo; televisão virou algo que ainda não defini; e infantil virou pré-adolescente, senão adolescente, mesmo. Antes que comece a discursar sobre a redução cada vez mais acentuada da infância na vida moderna, vou retomar a idéia.

O grupo ao qual me referi é o Trem da Alegria, impulsionado pelo talento precoce de sua formação original, Luciano, Patrícia e Juninho Bill, depois acompanhados por Vanessa, Amanda, Rubinho e Rick, e com o suporte das grandes composições da dupla hitmaker Michael Sullivan e Paulo Massadas.

Na onda retrô dos anos 1980, que hoje atinge aqueles que naquela época tiveram sua infância, recorda-se uma das músicas mais famosas do Trem, A Orquestra dos Bichos (de 1987, RCA, composição de Chico Roque e Carlos Colla). A canção fala de um jumento que, ao descobrir ser um gênio no que se refere à música, decide reunir seus amigos bichos da fazenda e da floresta para montar uma orquestra... daí a galinha vai para o microfone e se torna a galinha cantora mais famosa do Brasil. Todo mundo conhece.

O que me chamou a atenção foi o jumento. Pois duas décadas depois, fazia sucesso outra música, um funk, em que o jumento saía para passear com a égua Pocotó (Egüinha Pocotó, 2003, RDS, composição de MC Serginho)... como bem próprio da contemporaneidade, uma letra chula, com erros de concordância e fraqueza musical e de interpretação. Quanta diferença em comparação ao jumento de vinte anos atrás!

Nenhuma das duas músicas está nas paradas. A era da música infantil acabou deixando as crianças de hoje órfãs de algo realmente voltado a elas. O funk tem seu espaço e seu público. Mas fica o exemplo. Daqui a uns quinze, vinte anos, vai ter uma onda retrô dos anos 2000, igual a que temos hoje dos oitenta, e já tivemos dos setenta, dos sessenta, dos cinqüenta... e, uma pena, o jumento que será lembrado não vai ser o artista, que toca e canta com seus amigos bichos nem as crianças talentosas. Vai ser o outro, que sai para passear com o cavalinho e a egüinha...
Resta destacar a interessante experiência promovida em sala de aula por uma professora carioca, valendo-se da égüinha. Calma, não é nada obsceno: http://www.multirio.rj.gov.br/sec21/chave_artigo.asp?cod_artigo=723

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

A Especulação Imobiliária domina o céu e o espaço dos jornais

Feliz ano novo pra você!

Reportagem no Jornal Hoje da TV Globo, na edição desta tarde mostrou que a especulação imobiliária desenfreada pode destruir as dunas do Rio Grande do Norte. O repórter Francisco José, cuja voz para mim é sinônimo de reportagens sobre natureza no Globo Repórter, esteve lá e entrevistou um turista italiano que achava aquilo lamentável. A profissão do cara: agente imobiliário.A reportagem pode ser vista no portal Globo.com: http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM772151-7823-DUNAS+AMEACADAS+PELA+ESPECULACAO+IMOBILIARIA,00.html.

É interessante eu citar aqui a TV Globo, pois tenho predileção pela (ainda) Vice-Líder TVSBT Canal 4 de São Paulo, ZYB 855... emissora do Sistema Brasileiro de Televisão do genial Silvio Santos. Mais ainda o fato de eu ter assistido na íntegra o Hoje, pois se trata de um programa chatíssimo e superficial, creio eu feito especialmente para a sesta pós-almoço. A pessoa dorme vendo as notícias e só acorda lá pro final do Vale a Pena ver de Novo. Com isso, a audiência da tarde da Vênus Platinada está garantida.

Acessando mais tarde o blog Tinha que ser o Chaves, do cartunista, editor de imagens, crítico de TV, músico e piadista Igor C. Barros, dono da holding Igor C. Barros de sites, paródias e demais animosidades - aliás, tive a honra de conhecê-lo, um grande (literalmente) cara, tanto no pessoal quanto no profissional... um abraço, rapaz!, no link http://tinhaqueserochaves.blogspot.com/2007/12/so-paulo-mercado-imobilirio-est-no-cio.html me inspirei para o post de hoje.
Pois bem. Já não é de hoje que as nossas cidades estão sendo bombardeadas por lançamentos de imóveis. Esse fenômeno que é visto com bons olhos pelo "mercado" e pelas "tendências mundiais", para mim refletem aspectos problemáticos: a descaracterização dos bairros, a diminuição do espaço útil das moradias (dormitórios, quarto e cozinha minúsculos... e o banheiro, então...), estilos arquitetônicos ridículos (chamados de neo-clássicos, mas que não passam de frescuras rococó para agradar aos compradores, que, assim, se acham grande coisa), ofertas de conforto que transformam o condomínio em ilha fechada, com prazeres de clube social (causando a pindaíba de grandes clubes brasileiros. No caso de São Paulo, vejam só como é reduzido o quadro associativo de gigantes como a Portuguesa, o Corinthians, o Juventus - que já foi o clube com maior número de sócios etc.), de spa, parque de diversões e reserva ambiental.
O resultado é lamentável sob o ponto de vista urbanístico, pela elevação no movimento de automóveis em ruas que não têm a capacidade de absorção do tráfego. Mais: criam-se zonas mortas nos bairros, prejudicando as pessoas que insistem em viver em suas casinhas, às vezes simpáticas construções sobreviventes de vilas operárias. Ruas desertas e inseguras. E a economia local não se aquece, só os shoppings.
Cada vez mais ocorrem arrastões de construtoras, incorporadoras, empreendedoras etc. dispostas a "revitalizar" os bairros. Revitalizar não é resgatar o patrimônio histórico dessas localidades? O que está em jogo, além do lucro das construtoras, é a identidade do local. O tradicional bairro da Mooca em São Paulo tem exemplos disso: http://www.vitruvius.com.br/minhacidade/mc196/mc196.asp.

No portal da Mooca, http://www.portaldamooca.com.br/, extraí este comentário que transcrevo abaixo, e que resume tudo o que tentei (mal-e-mal) expressar:

Walter Rosa - (São Paulo-SP) - 28/10/2007
Gosto de passear na Mooca, e vejo que ela está se tornando um bairro como vários em São Paulo, ou seja com cada vez mais prédios. A cidade está ficando pasteurizada. Mas há um jeito. É preciso que as entidades representativas do bairro , juntamente com as pessoas que não aceitam tal mudança pacificamente, e procurem os vereadores para elaborarem alteração na Lei de Uso do Solo controlando a densidade habitacional. A outra medida seria também estas entidades procurarem o CONDEFHAT e a Secretaria do Patrimônio Histórico de São Paulo, da Prefeitura, para tombar os edifícios e regiões do bairro ainda não degradados pela especulação imobiliária. Senão será a morte da Mooca.Será um bairro qualquer, sem nada que a caracterize.VIVA A MOOCA !


Em tempo: destaquei minhas principais digressões com a letra vermelha e os caracteres em itálico. As horas que mudei de assunto mas achei que a opinião era útil para mais pessoas além de mim mesmo, mantive o tipo como o do resto do texto.

Desculpem a chatice, mas hoje saiu assim, fazer o quê...

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